terça-feira, 13 de abril de 2021

O erro de Marx quanto ao salário por peça

 

SOBRE O ERRO DE MARX QUANTO AO “SALÁRIO POR PEÇA” N’O CAPITAL

 

Neste esboço, debatemos a defesa de Marx sobre a prioridade capitalista do salário por peça. Como sabemos, o diagnóstico está errado, pois o salário por tempo, não por peça, predomina no capitalismo consolidado. Com o trabalho por aplicativo, o salário por peça ganha algum destaque, porém permanece marginal na indústria de conjunto. Aqui, usaremos a própria letra de Marx para apontar o motivo de seu erro. Comecemos por sua afirmação:

 

Da exposição precedente resulta que o salário por peça é a forma de salário mais adequada ao modo de produção capitalista. (Marx, O capital I, Boitempo, 2013, p. 627.)

 

Está clara aí a posição do velho alemão. Vejamos elementos da “exposição precedente” que parecem sustentar suas afirmações:

 

Como a qualidade e a intensidade do trabalhado são, aqui, controladas pela própria forma-salário, esta torna supérflua grande parte da supervisão do trabalho. (Idem, p. 624.)

 

Porém, a supervisão do trabalho – capatazes, etc. – é um custo improdutivo pequeno em si mesmo na indústria moderna. O salário por tempo não causa um desperdício de recursos especial.

Ele continua:

 

Dado o salário por peça, é natural que o interesse pessoal do trabalhador seja o de empregar sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista a elevação do grau normal de intensidade. (Idem, p. 624.)

 

Um ponto para o salário por peça! Tem mais:

 

É igualmente do interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, pois assim aumenta seu salário diário ou semanal. (Idem, p. 625.)

 

Se possível, o salário por tempo também estimula ampliar a jornada de trabalho. Mas o argumento anterior a este, a citação antecedente, ainda não foi refutado por nós. Vejamos o elogio e a ambiguidade de Marx:

 

Mas o maior espaço de ação que o salário por peça proporciona à individualidade tende a desenvolver, por um lado, tal individualidade e, com ela, o sentimento de liberdade, a independência e o autocontrole dos trabalhadores; por outro lado, sua concorrência uns contra os outros. O salário por peça tem, assim, uma tendência a aumentar os salários individuais acima do nível médio e, ao mesmo tempo, a baixar esse nível. Mas onde um determinado salário por peça já se encontra a muito tempo consolidado de maneira tradicional – o que cria enormes dificuldades para sua rebaixa –, os patrões também recorreram, EXCEPCIONALMENTE, ao procedimento  de transformar forçadamente o salário por peça em salário por tempo. (Idem, p. 626, destaques nossos.)

 

Onde Marx coloca a palavra “excepcionalmente”, aconteceu como nada sutil regra… O salário por tempo se impôs. Qual, então, o motivo? Eis, conclui-se: a luta de classes estimulada pela citada “tradição”!

Marx diz que o salário por peça é o método para explorar mais (idem, p 627). Mas quase diz que isso valeu somente durante a manufatura, mas nada garantia que seria o mesmo na grande indústria, no sistema de maquinaria.

Mostremos mais uma citação do próprio Marx, no mesmo capítulo, onde fica cristalina a luta de classes gerada pelo salário por peça:

 

Essa variação do salário por peça, ainda que puramente nominal, provoca lutas constantes entre o capitalista e os trabalhadores. Ou porque o capitalista aproveita o pretexto para reduzir efetivamente o preço do trabalho, ou porque o incremento da força produtiva do trabalho é acompanhado de uma maior intensidade deste último. Ou, então, porque o trabalhador leva a sério a APARÊNCIA DO SALÁRIO POR PEÇA, COMO SE LHE FOSSE PAGO SEU PRODUTO, e não sua força de trabalho, e se rebela, portanto, contra o rebaixamento do salário, que não corresponde ao rebaixamento do preço de venda da mercadoria. (Idem, p. 629, destaque nosso.)

 

Concluímos pela comparação das citações que o salário por tempo é melhor ao capitalismo porque melhor produz uma aparência que esconde o real estado das coisas. O salário por tempo gera menos problemas classistas, menos luta de classes aberta. Marx conclui o capítulo sobre o salário por peça de modo, no mínimo, esclarecedor:

 

“os trabalhadores vigiam cuidadosamente o preço da matéria-prima e dos bens fabricados e são, assim, capazes de calcular com precisão os lucros de seus patrões.”

O capital, com razão, descarta tal sentença como um erro crasso acerca da natureza do trabalho assalariado. Ele roga contra a pretensão de impor obstáculos ao progresso da indústria e declara rotundamente que a produtividade do trabalhador é algo que não concerne de modo algum ao trabalhador. (Idem, p. 629.)

 

É preciso, portanto, uma forma de salário que menos estimule desconcertantes vigilâncias por parte do operariado…

Por fim, Marx quase ofereceu o fato de que o salário por tempo tem prioridade em relação ao salário por peça nesta citação com a qual concluímos este esboço:

 

O salário por peça, portanto, não é mais do que uma forma modificada do salário por tempo. (Idem, p. 623.)

 

Até gênios erram.

 

 


 

 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Uma conceituação dialética das classes sociais

 

UMA CONCEITUAÇÃO DIALÉTICA DAS CLASSES SOCIAIS

 

Como é sabido, Marx encerra seus escritos d’O Capital exato quando, finalmente, iria oferecer sua conclusão sobre as classes sociais. O manuscrito é, então, interrompido. A questão ficou suspensa no ar, flutuando, a alimentar os moinhos de vento das mais variadas interpretações próprias dentro do marxismo.

Segundo consta, nosso teórico alemão afirmou existir três grandes classes: os assalariados, os capitalistas e os proprietários de terra. Eis a tríade maldita. Porém teóricos como Trotsky afirmaram haver, em verdade, três outras classes principais: o proletariado, a classe média (ou pequena burguesia) e a classe capitalista. A letra literal de Marx, claro, tem mais peso, mais “valor”, tendo preferência entre os marxistas “ortodoxos”. É compreensível. De qualquer modo, resta elaborar com método dialético sobre o tema, tentando “adivinhar” qual seria o texto final do fundador do socialismo científico. Lembremos que nem sequer Engels ousou terminar o capítulo 52 do livro III, As classes.

Após o necessário rodeio introdutório, este esboço visa oferecer uma interpretação própria baseada na dialética, seu método científico e sua lógica (mas não, é evidente, em seu modo próprio de exposição das ideias, pois exigiria trabalho mais amplo).

Em primeiro lugar, deixemos cristalino que por proletariado ou por operariado, nomes diferentes do mesmo objeto, da mesma classe, incluímos, aqui, todos os produtores de valor e de mais-valor, além de também somente, por outro ângulo, produtores de valores de uso alienáveis, com produção escalável e medível pelo tempo, ou seja: assalariados das fábricas, das minas, dos campos, dos transportes e da construção civil, além de trabalhadores mais “artesanais” como os padeiros. Todos eles adicionam valor às mercadorias.

A maioria dos assalariados não operários bem cabe no conceito de assalariados médios, parte da classe média. A forma-salário é, por isso mesmo, uma forma: faz parecer que todos os setores são iguais porque recebem um salário, escondendo a diferença de conteúdo que está para além da superfície da sociedade – que algumas atividades sociais produzem valor e outras não o produzem.

Feito tais esclarecimentos, entremos mais diretamente na intenção deste texto.

Na Ciência da Lógica, Doutrina do Conceito, Hegel faz exposição dialética das categorias universal (ou geral), particular e singular (ou individual). Como dialético, afirmou que as categorias não estão isoladas e fixadas no entendimento; na verdade, na razão, elas estão misturadas, em contato, onde uma é expressão da outra e na outra, e vice-versa. No Livro I d’O capital, ao tratar da divisão do trabalho na sociedade, Marx recupera tal formulação, deixando claro que as reivindica (diferente de sua crítica parcial ao conceito de particular feita durante sua juventude). Pois bem; penso que a questão das classes expressa, também, a mesma relação. Vejamos, no capitalismo:

 

Classe no universal, no geral: proletariado, classe média, burguesia, proprietários de terra, lupemproletariado.

Classe no particular: a classe metalúrgica, a classe gráfica, a classe tecelã, a classe de padeiros, a classe vidreira, a classe petroleira, etc. – expressão particular do geral, do proletariado; jornalistas, advogados, professores, economistas, médicos, pequenos empresários, pequenos donos de terra, etc. – expressão do geral no particular entre a classe média; banqueiros, industriais, patronal comercial, burguesia da metalurgia, burguesia do setor automobilístico, etc. – expressão do geral, o capitalista, no particular; etc.; etc.;

Classe no singular: aquele operário metalúrgico, aquele operário gráfico; aquele professor assalariado, aquele médico assalariado; Aquele burguês dono de empresa de cosmético; aquele proprietário fundiário de bosques; aquela prostituta (lupemproletariado), etc.

 

É uma visão nova de fato. Até onde sei, nenhum outro marxista tomou a questão das classes desde o universal, o particular e o singular. Aí, a dialética cumpre seu papel. De qualquer modo, o pensamento ainda flutua. Tal observação corresponde ao pretendido por Marx? A resposta a esta indagação deve ser oferecida com outra pergunta: a elaboração acima está em si e, centralmente, na realidade correta ou errada? Justificando este esboço, penso que é a resposta justa ao tema, sim, corresponde ao real.

Porém, o momento de virada: nem tudo é classe social. Os políticos, os dirigentes sindicais, os profissionais de partidos, os gerentes e os executivos das empresas – são o quê? São também apenas assalariados? Penso que devemos colocá-los na posição de burocracia, são os burocratas das diferentes classes da sociedade. É o ponto fora da curva ou a curva fora do ponto, que seja. Reforçamos: nem tudo é classe social. Há camadas de homens e mulheres que são desclassados, que são destacados pela própria necessidade de funcionamento social.

Por fim, outra variação. O conceito nunca se cabe completamente dentro de si próprio. Com o atual nível de queda da taxa de lucratividade, um burguês industrial pode bem investir parte de seu lucro em dívidas públicas, transitando entre dois tipos da classe dominante, o que torna até sua mentalidade duplicada, com um pé em cada setor. Um operário pode, em nossa época, ter um pequeno comércio em sua casa para complementar a renda, ou ter um sítio pequeno, ou algumas ações raquíticas na empresa onde trabalha; assim também duplicando sua “visão de mundo”, um pé no proletariado e outro na classe média. Em tempos de desemprego crônico, diz Trotsky, o grande número dos sem emprego e sem esperança de contrato de trabalho – o exército industrial de reserva – quase forma uma nova classe em nossa época, uma subclasse dos desempregados. Essas são expressões deformadas, dentro dos limites categoriais do capitalismo, da tendência ao fim das classes sociais.






sexta-feira, 5 de março de 2021

O valor como substância – e outras reflexões

 

O VALOR COMO SUBSTÂNCIA – E OUTRAS REFLEXÕES

 

Por muito tempo, a categoria valor foi confundida com a categoria preço. Apenas teóricos posteriores absorveram a noção de valor como algo qualitativo, além do mais, que não é o preço, embora também o seja… Um raciocínio que, vale observar, causa espanto entre aqueles fora da tradição e do pensamento dialéticos. O valor é material enquanto o preço é ideal.

Os teóricos da crítica do valor e, especialmente, Postone recuperaram ao seu modo o caráter de substância do valor. Mas tal concepção tem validade segundo a letra da obra de Marx? A resposta é sim. Vejamos um caso:

 

Além disso, quando ele enfim se processa, portanto, quando a mercadoria não é invendável, sua mudança de forma ocorre sempre, ainda que, nessa mudança de forma, possa ocorrer um acréscimo ou uma diminuição anormal de substância – de grandeza de valor. (Marx, 2013, p. 182, grifo meu.)

 

O valor para Marx poderia ser subjetivo ou metáfora, uma ficção útil? Vejamos em outra ciência. Ainda hoje, os físicos insistem que o conceito de energia é apenas para uso prático, que ela, a energia, não existe no mundo real… O alemão, ao contrário, dá estatuto ontológico, material, à categoria mais essencial da economia:

 

O valor do ferro, do linho, do trigo etc., Apesar de invisível, existe nessas próprias coisas... (Idem, p 170.)

 

Tal citação aparentemente é contraditória com uma famosa afirmação de Marx na mesma obra, no primeiro capítulo: nenhum físico ou químico encontrou valor nas mercadorias por mais que a mexesse e a remexesse. É uma substância social que deriva de relações sociais, deriva do trabalho.

Leiamos outro trecho que deixa clara a posição de Marx:

 

"Aqui ele [o valor] se apresenta, de repente, como uma substância em processo, que move a si mesma e para a qual mercadorias e dinheiro não são mais do que meras formas." (Idem p. 230, grifo meu.)

 

O grande marxista brasileiro Eleutério Prado erra ao tratar a categoria substância em outro significado. Ele parte da relação substância e acidente na dialética, onde aquele, a substância, se expressa neste, nos acidentes. A substância seria suporte dos acidentes, mas, o economista observa, o valor não é suporte do valor de uso – ao contrário: o valor de uso é suporte do valor. Porém a confusão logo se desfaz. O problema aí é que ele trata de outro universo categorial, embora também dialético. A substância valor é o que permeia suas formas, passa por elas, transfere-se de uma forma a outra (com a troca e com o trabalho).

Aqui, observa-se com clareza como a profunda educação filosófica de Marx o permitiu aproveitar as décadas de dedicação teórica ao estudo da economia política. Em tempo de “doutores” formais cuja prática da ciência é algo apenas “casual” para conseguir algum emprego, vale comparar com o grande conhecimento do sujeito alemão.

 

UMA HIPÓTESE DE TRABALHO

Se o valor existe mas é empiricamente invisível, o que, de fato, é ele? Além de substância social, podemos conformar mais uma resposta. A mercadoria ou o capital é o ser – enquanto o valor é o nada. O nada está dentro do ser, são unidade e diferença em devir, em vir a ser, em movimento. O processo de valor que se autovaloriza, ou seja, capital, encontra-se como outro aspecto:

 

O devir dentro da essência, seu movimento reflexionante, é, por conseguinte, o movimento do nada para o nada e, através disso, de retorno a si mesmo. (…) O ser é apenas como o movimento do nada para o nada, assim ele é a essência… (…) Essa pura e absoluta reflexão, que é o movimento do nada para o nada, determina ulteriormente a si mesma. (Hegel, 2017, p. 43, grifo meu.)

 

Quando um crítico diz que o valor não é nada ao afirmar sua inexistência, de certa forma tem razão ao mesmo tempo em que erra completamente. O valor é nada que, no entanto, em nossa sociedade, é tudo – logo é o seu oposto, o ser.

Capital é a forma de ser do valor, do nada. Marx destina uma seção inteira a um único capítulo chamado “A transformação do dinheiro em capital”, que, visto pela essência, é transformação do valor em capital, em valor-capital.

Que exista mercadoria sem valor (terra virgem, etc.) e capital fictício, também sem valor, apenas mostra que a substância ou o nada impera, domando a natureza do ser como mercadoria ou como capital.

Ainda sobre ser e nada, destacamos que a citação de Hegel anterior é presente na Doutrina da Essência, livro II da trilogia em Ciência da Lógica. Porém o ser-nada inicia a primeira obra, A Doutrina do Ser. Por que fazemos tal observação? Ora, o nada é deduzido do puro ser, do ser sem determinações. Como, por outro lado, é extraído o valor do valor de uso? O leitor já deve imaginar: pela exclusão de todas as características das mercadorias:

 

Abstraindo do valor de uso dos corpos-mercadorias, resta nelas uma única propriedade: a de serem produtos do trabalho. Mas mesmo o produto do trabalho já se transformou em nossas mãos. Se abstrairmos de seu valor de uso, abstraímos também dos componentes e formas corpóreas que fazem dele valor de uso. O produto não é mais uma mesa, uma casa, um fio ou qualquer coisa útil. Todas as qualidades sensíveis foram apagadas. E também já não é mais o produto do carpinteiro, do pedreiro, do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho produtivo determinado. Com o caráter útil dos produtos do trabalho desaparece o caráter útil dos trabalhos nele representados e, portanto, também as diferentes formas concretas desses trabalhos, que não mais se distinguem uns dos outros, sendo todos reduzidos a trabalho humano igual, a trabalho humano abstrato. (Marx, 2013, 116.)

 

E Mais:

 

Consideremos agora o resíduo dos produtos do trabalho. Não restou deles a não ser a mesma objetividade fantasmagórica, uma simples gelatina de trabalho humano indiferenciado, isto é, do dispêndio de força de trabalho humano, sem consideração pela forma como foi despendida. O que essas coisas ainda representam é apenas que em sua produção foi despendida força de trabalho humano, foi acumulado trabalho humano. Como cristalizações dessa substância social comum a todas elas, são elas valores — valores mercantis. (Idem.)

 

De agora em diante, o ser e o nada estão em comunhão com o valor e o capital. Não por acaso, valor e valor de uso (mercadoria) iniciam O Capital assim como ser e nada iniciam a Ciência da Lógica.


A ORGANIZAÇÃO D’O CAPITAL

Muitas são as formas de ver as três obras de O Capital. Penso, no entanto, que falta observar uma em específico. O capital I trata da formação do capital como fundamento de uma sociedade nova, por isso foca na produção, não nas formas pré-capitalistas do capital. Vai avançando pela formação da mercadoria e do dinheiro para a circulação simples, e aí, para a produção de capital em seu amadurecimento histórico-lógico. No livro II, já temos um capital industrial maduro, robusto, saudável – nesse aspecto são expostas as categorias e as ideias. No livro III, trata-se do capital produtivo mais maduro, em vias de seu fim – daí tratar das crises, das mudanças que estão a ocorrer no capitalismo de sua época e a exposição da queda tendencial da taxa de lucro. Aqui, trata-se do envelhecimento do sistema. É análogo ao ciclo de amadurecimento de um corpo, de um ser vivo. Mas este é apenas um dos ângulos para observar tal trindade.


Bibliografia

Hegel. (2017). Ciência da Lógica - a Doutrina da Essência. Bragança Paulista: Vozes.

Marx, K. (2013). O capital I. São Paulo: Boitempo.

 

 



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Por que a MMT não funciona

 

Por que a MMT não funciona

 

No desenvolvimento do capitalismo no século XX e início deste século, inflou-se uma base social que deve ser considerada pela teoria das classes: o setor médio do assalariado servidor público, uma parte da pequena burguesia, entre o operário e o burguês.  Com a ampliação numérica do número de membros deste grupo social e certa precarização do seu trabalho, houve uma esquerdização destes, expresso, por exemplo, na adoção dos métodos proletários de luta, como a greve. É natural, portanto, que surjam teorias que representem este setor. Assim, teóricos afins defendem o fortalecimento do estado burguês, os serviços públicos, contra as privatizações e pela adoção da política econômica keynesiana. Recentemente, a assim autoproclamada Teoria Monetária Moderna (MMT) busca destacar-se em meio ao reformismo político de esquerda.  Dada a moda teórica recente de tal concepção, vamos aqui discordar de algumas de suas conclusões indo ao núcleo de sua natureza.


A pergunta universal do nosso artigo é se Marx estava correto ao afirmar que o capitalismo tem contradições inerentes ou, ao contrário, podemos encontrar algum nível de estabilidade interna por dentro do sistema vigente; ou seja: se o reformismo e o centrismo (que está entre a reforma e a revolução) ou o marxismo tem razão.


A MMT afirma: 1) é o Estado a fonte do dinheiro; 2) os impostos sevem apenas para retirar excesso de moeda e nunca para fins de financiamento estatal; 3) então, o Estado pode criar dinheiro “do nada” ao ponto de produzir permanente pleno emprego. Vamos aos elementos que impedem a proposta de realizar-se.

 

[…]

 

2. O pleno emprego


Este é o ponto mais decisivo da compreensão e o mais importante deste comentário. Observemos como o equilíbrio entre as classes é inviável, o que torna o uso prático da “moderna” teoria monetária um desejo utópico por um capitalismo mais humano.


Para a MMT, o máximo do dinheiro “criado do nada” sem inflação é alcançar o pleno emprego dos fatores de produção cuja medida central é empregar toda a força de trabalho nacional. Aqui o reformismo fica mais evidente ao deixar de compreender que ao capital é inerentemente insuportável por muito tempo uma situação de emprego pleno. Vejamos os motivos.

 

1. O pleno emprego, como força de lei objetiva – já que o medo de desemprego quase que desaparece –, leva necessariamente à onda de greves cada vez mais duras e confiantes, às paralizações longas, aos ganhos reais de salário; enfim, ao aumento do custo unitário do trabalho, ou seja, uma parte do que seria lucro empresarial torna-se salário e custo com direitos sociais. Os trabalhadores tomam, assim, a ofensiva até mesmo na política (Kalecki, 2020). Isto é um problema ao capital e de modo algum pode ser indefinidamente suportado.


Observamos tal fenômeno ocorrer até 2015 no Brasil, antes do aumento vertiginoso da taxa de desemprego como política econômica burguesa. A partir da premissa equivocada de que a crise de 2008 seria apenas um abalo conjuntural, o governo do PT, esperando a normalização internacional, tomou medidas anticíclicas como a redução dos juros, investimentos estatais, aumento real do salário mínimo, etc. Observemos os dados de 2013. A quantidade de greves explodiu:

 

GRÁFICO 7


Fonte: (Dieese, 2020)

 

O número de horas paradas também:


GRÁFICO 8



Fonte: (Dieese, 2020)

 

Sabe-se que em 2014 e, em parte, 2015 as lutas dos trabalhadores e setores populares continuaram intensas. Como razão, o baixo desemprego correspondeu ao aumento das lutas:

 

GRÁFICO 9

Fonte: (IBGE, 2020)

 

Veja-se que o governo petista adiou, não impediu, a forma destrutiva da crise por anos, com ações anticíclicas que fundamentaram um conflito distributivo de longa duração, revertido apenas com a entrada de vez do desemprego, com o fim do pleno emprego:

GRÁFICO 10



Fonte: (IBGE, 2020)

 

2. O pleno emprego tem como base o aumento do número de empresas concorrendo pelas parcelas do valor global. O que isso significa? Com maior oferta, os preços tendem a cair (e o patrão já está perdendo lucro com o ponto 1, a força dos trabalhadores confiantes com o baixo desemprego). Eis outro problema, por isso a quebra econômica é bom para algumas empresas e ao capital em conjunto.

 

3. No aquecimento da economia, as empresas crescem e podem pagar suas dívidas, o que reduz os juros. Mas o consumo aumentado e os investimentos a todo vapor, leva a uma demanda maior por dinheiro, o que por sua vez aumenta os juros – por mais um meio, o burguês "produtivo" é sugado cada vez mais, dessa vez pelos bancos.

 

4. Com o aquecimento da economia, as empresas de monopólio sugam parte do valor global, que reduz a apreensão de valor em outras empresas, com preços artificialmente altos. Mas há aqui ainda, aqui, outro caso típico. Pleno emprego dos fatores de produção, cuja medida é o uso de quase toda a força de trabalho disponível, é diferente de equilíbrio; enquanto a maioria dos setores está obrigada a rebaixar os preços, algumas empresas possuem oferta menor que a demanda, o que obriga aí à elevação dos preços, a sugar valor para si, aumentando os custos para outros (matéria prima, etc), e leva algum tempo para que surjam novas empresas que aumentem a oferta.

 

Enfim: o pleno emprego é crise ou, adotando o raciocínio dialético, o primeiro sinal da crise por meio de seu oposto. O governo será pressionado a adotar a política econômica correspondente como foi o caso do governo Dilma II (um golpe de Estado apoiado pela maior parte da burguesia impôs a política econômica que o governo tinha dificuldade de assumir, pois havia perdido base social com as medidas do ministro da fazenda Levy). A crise é uma necessidade do capital.


Se queremos o pleno emprego, temos de aprender a “política econômica” marxista, o programa de transição. No lugar da utopia de fazer o Estado forçar o pleno emprego por emissão de moeda e gasto público, exijamos algo classista, o que mobiliza as massas quando o desespero as alcança: escala móvel de tempo de trabalho, ou seja, redução da jornada de trabalho, com o mesmo salário, na proporção que produza desemprego zero; isto é dividir todo o trabalho disposto na sociedade entre toda a força de trabalho disposta. Mas é mais fácil o capitalismo cair do que tal proposta ser aceita, e esta é exatamente sua grande força: empurra para uma luta “reformista” pelo o fim do sistema. É uma política superior à noção de Keynes, muito. Há uma taxa social, não natural, de desemprego exigido pela própria lógica do sistema capitalista, portanto quebrar uma de suas leis leva à revolução social. Para isso, o caminho não é o voto em partidos “progressivos”, mas elevar o nível de organização dos trabalhadores.

 

Bibliografia

Kalecki, M. (30 de 09 de 2020). Aspectos políticos do pleno emprego. Acesso em 30 de 09 de 2020, disponível em Jacobin Brasil: https://jacobin.com.br/2020/09/aspectos-politicos-do-pleno-emprego/?fbclid=IwAR3651oRmfTPYBfHt8YqKP0TuspcFS2YJNMLx9hPzCEME2L04oMKISIW094

 

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sistemas complexos, causa-efeito e dialética - uma solução

 

Ao entrar em contato com acadêmicos – físicos, economistas – que consideram o estudo dos sistemas complexos como central e de ponta no pensamento científico, uma afirmação comum entre eles era reforçada para explicar e expor tal campo: grandes causas podem gerar pequenas consequências assim como pequenas causas podem gerar grandes consequências.

 

Não sei o caso do leitor; já no meu caso, lidar com a afirmação anterior sobre a relação causa-consequência afetou minha consciência. Primeiro, positivamente com o aprendizado; segundo, ao mesmo tempo, vi-me inconformado. Como diria Hegel sobre certas observações suas, meu espírito ficou suspenso, incomodado com o que foi dito acima. Parece efetivamente correto, mas ainda tenso, incompleto.

 

Pus-me a refletir porque isso ocorre, ou seja, procurei uma solução para a formulação dada. Por qual razão pequenas causas geram grandes consequências, por exemplo?

 

Após certa produção subconsciente, que afeta a intuição no trabalho filosófico e científico, consegui perceber que havia necessidade de outra categoria “intermediária”, o conceito condição. Resposta: grandes causas podem gerar pequenas consequências por causa das condições ou, em singular geral, da condição.

 

O conceito ou a categoria de condição há em Hegel (Ciência da Lógica - Doutrina da Essência), porém não é nele tratado em tal relação com a causalidade.

 

Quando a categoria veio à consciência, cessou de soar incompleta ou forçada a relação causal como demonstrada pelos apoiadores da complexidade. Causa e efeito encontram na condição o sentido da desproporcionalidade. A lógica retornou ao mundo.

 

Até que ponto a formulação deste pequeno texto é original? Não esgotei a literatura sobre o tema para dizer, com certeza, se há ineditismo ou plágio. Ficarei feliz se alguém da área responder a dúvida (e aqui entra uma das importâncias do trabalho coletivo).

 

Deve-se pensar profundamente ainda antes de contar com todo o aparato conceitual idealmente necessário, ainda que ocorra o risco relativo de reinventar a roda.



Fonte da imagem: https://www.eco.unicamp.br/noticias/complexidade-brasileira-abordagem-multidisciplinar

domingo, 12 de julho de 2020

Uma solução para a "fenda dupla" e a Teoria de Tudo


NOVA PROPOSTA DE SOLUÇÃO PARA A “FENDA DUPLA”

Antes de mais, este texto pode ser um enorme meio de “passar vergonha”, pois o autor é não especialista na área, um amador. Mas peço que o leitor tenha paciência já que boas ideias podem vir, como diria Sagan, de origens realmente inesperadas. O benefício da dúvida ajuda e, logo, toda crítica será bem aceita.

Neste curto material, para fins de exposição, irei diretamente oferecer a resposta para, aí então, supor áreas da física aonde seja útil. Tentando resolver o problema filosófico da divisibilidade ou não ao infinito da matéria, cheguei à conclusão de que os átomos reais – partículas aparentemente indivisíveis como o neutrino – são ESPAÇO CONCENTRADO, CONDENSADO. O Espaço foi considerado entidade real desde Einstein, mais do que conceito abstrato, faltou-lhe apenas um laço maior com as diferentes entidades. Isso quer dizer, na hipótese que aqui apresentamos, que a matéria não apenas curva, deforma, o tecido espaço-tempo mas também é o próprio espaço tempo autocurvado, para dentro de si. Isso significa que elétrons, neutrinos, quarks, etc. são formas, níveis, de espaço concentrado. Assim, tudo está interligado pelo seu meio.

O que essa nova concepção – que pode estar completamente equivocada, lembramos – pode trazer de prático? Ao que me parece, tal forma de observar o mundo apresenta soluções para muitos problemas atuais da física. Aqui entra o experimento da dupla fenda.  Lançar um fóton por uma fenda dupla produz um fato curioso: por mais que passe apenas um a cada 1 hora e meia, ainda assim, os locais que registram a chegada final do objeto comportam-se como se fossem ondas. No lugar de dois locais, porque duas fendas, os fótons atingem vários pontos, formando um padrão singular. É como se cada fóton lançado “soubesse” que a outra fenda estava aberta, alterando seu comportamento. Se uma fenda é fechada, então apenas um ponto – uma faixa – é atingido pelos fótons. Como explicar?



Ora, se um fóton ou um elétron é parte do espaço, ou seja, o espaço concentrado, então o próprio espaço conformado em dupla fenda afeta o objeto em movimento. A dualidade onda-partícula fica assim resolvida. O fóton sai de sua origem não apenas como partícula individual e totalmente independente mas ao mesmo tempo como ligado ao ambiente por meio do espaço. A interferência no comportamento observado – e somente até agora descrito, não explicado – se dá porque a segunda fenda aberta afeta a composição do espaço, o que afeta a partícula.

O cosmos pode ser pensado como formado por entidades individuais e suas interelações preenchendo todo o “espaço”. Ou, na nossa visão, pode ir mais longe, considerando o espaço uma entidade que forma as entidades individuais e suas interrelações recíprocas. Se a realidade vai, do ponto de vista lógico, ainda que não na história do universo, do simples ao complexo, o mais simples, e o mais pobre em determinações, é o conceito de espaço. Assim, a teoria quântica de campos, onde cada partícula deve corresponder a um campo, é superada pela visão de grau de "espaço concentrado".

Esta concepção, de tecido do espaço-tempo concentrado formando as partículas, pode propor inúmeras soluções. Vamos aos que o “físico amador” desde texto foi capaz de intuir.

1)      Como se sabe, a teoria da gravitação de Newton foi longe, mas apresentou dificuldades em certo nível como a impossibilidade de explicar a órbita de Mercúrio – apenas Einstein resolveu com uma nova teoria – hoje, de maneira análoga, não se sabe por qual motivo a gravidade de exoplanetas tão diferentes da Terra possuam, apesar disso, gravidade parecida com a do nosso planeta… Pensamos que esta concepção apresentada pode resolver.

2)      As quatro forças fundamentais do universo são unificadas, menos a gravidade… Solução intuída: a força forte pode ser um aspecto do “espaço concentrado”, assim como as demais forças.

3)      O modelo padrão apresenta as partículas elementares – em tese, se são todas espaço concentrado, podem transformar-se umas nas outras assim como os átomos passam de um, o mais simples, para a formação de outros.

4)      A matéria escura (com mais densidade) pode ser a mesma entidade, mesmo fluido, da energia escura (com menos densidade) – logo, as galáxias, sendo o tecido concentrado, “puxam” o tecido intergaláctico.

5)      Tal concepção pode resolver o problema da quebra dos cálculos de Einstein em relação aos buracos negros.

6)      Enfim, se não for a loucura narcisista do autor ou uma boa ideia inútil, a teoria unificada da física, a teoria de Tudo, pode consolidar-se de tal concepção.

Tive de alertar o leitor do completo amadorismo do autor. No entanto, a humildade que visa compaixão em caso de erro é pelo menos uma obrigação científica. A ideia acima fixou em minha mente e, somado a isso, a possiblidade de morrer por Coronavírus permitiu aceitar o risco de desmoralização. A concepção filosófica de que tudo é espaço concentrado, condensado, tem validade para a ciência? Apenas os especialistas – e os especializados devem ter máximo respeito – podem responder. Que algum físico afirme ou refute este breve artigo seria uma honra independente do resultado.

João Paulo Pereira dos Santos Neto. Teresina-PI.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Para derrotar o fascismo, redução da jornada de trabalho já!

PARA DERROTAR O FASCISMO, REDUÇÃO DA JORNADA DE TRABALHO!

O desespero social leva boa parte dos trabalhadores desempregados ou empurrados para a função de autônomos a buscar uma solução também desesperada. É impossível uma tensão social forte como a falta de emprego manter-se por muito tempo sem grandes mudanças.

A redução da jornada de trabalho, mantendo-se os salários, na proporção que empregue toda a força de trabalho disponível é a “política econômica” marxista contra a crise. Todo o trabalho disponível deve ser repartido para todos os trabalhadores disponíveis. Temos, assim, uma proposta de pleno emprego. É fato que sofremos os efeitos de uma crise que vem de 2015 e já estamos diante de uma nova crise econômica mundial que o coronavírus apenas acentuou e disfarçou (como se o problema econômico tivesse surgido apenas da doença). Por isso a realidade exige uma palavra de ordem por uma reforma mais radical como a que propomos neste parágrafo.


A democracia burguesa é imprestável e merece desmoralizar-se, mas é melhor que um regime ditatorial. Se a vigente forma democrática não melhorar a vida da maioria, uma ruptura certamente virá, positiva ou negativa. Para afastar os assalariados e setores populares do projeto fascista, é necessário que o problema mais sentido, o desemprego, seja resolvido. É preciso que a esquerda radical tenha uma proposta que atraia amplos setores.

Por fim, precisamos fazer um debate honesto, fora do sectarismo, sobre o motivo de a esquerda comunista ainda ter evitado levantar tal proposta, a de redução proporcional da jornada de trabalho. Tais partidos têm muita presença, tanto mais nas direções, de funcionários públicos com estabilidade, dirigentes sindicais ou profissionais liberais. Podemos nos orgulhar da presença dos comunistas no movimento operário nos últimos 30 anos, mas, se queremos ser verdadeiros partidos socialistas, temos de ter a sensibilidade de entender qual a proposta mais imediata para a situação social e econômica de crise. O desemprego crônico deve ser combatido.