segunda-feira, 27 de junho de 2016

Em entrevista, Lenin comenta a situação do Brasil em 2016

EM ENTREVISTA, LENIN COMENTA A SITUAÇÃO DO BRASIL EM 2016



O blog Canhoto conseguiu uma entrevista “inclusiva” com o principal líder da revolução russa. Como se sabe, não é tarefa fácil; reservado e direto, Lenin nos recebeu guiado pela preocupação com o projeto socialista. Na conversa disponibilizada na íntegra, fala sobre conjuntura, regime partidário, seus erros, o futuro, questões de método; além de guiar o próprio jornalista quantos aos rumos do diálogo.

Do nosso ponto de vista, a esquerda parece confusa ou limitada sobre a explicação mais geral da situação brasileira. Como o senhor, referencia entre os comunistas, vê este momento de nosso país?

Lenin: Do ponto de vista marxista, precisaríamos começar com outra pergunta: como está o capitalismo mundial? Seu país não se explica por si próprio. Qualquer análise séria deve considerar, em primeiro, que esta crise é pior que a orgânica de minha épca, que teve sua mais intensa manifestação em 1929. Em segundo, que o imperialismo norte-americano está em decadência e sob os primeiros sinais de contestação, o que aponta a possibilidade de uma III grande Guerra. Em terceiro, se percebi que o fim do século XIX foi o início da fase imperialista, podemos perceber que este sistema imperialista – superior e de decadência – começa a definhar-se. Em quarto, toda a relação dinheiro em busca de dinheiro (D-D´), que se expressa no setor bancário e no capital fictício, é uma bomba-relógio da crise.

E como isso se expressa em nós? Não é autoevidente a causalidade.

Lenin: Quem possui os juros mais altos do mundo? Quem possui a dívida pública em proporções astronômicas? O Brasil é um paraíso dos bancos. O capital especulativo/financeiro deseja isto: drenar a riqueza de seu país para amortecer a próxima etapa da crise, tentando dar retorno lucrativo ao capital fictício e parasitário. É fácil demostrar: os bancos centrais de todo o mundo impõe juros negativos para evitar os efeitos da crise. O que o Banco Central brasileiro, diante do mesmo problema, faz no mesmo período? Aumenta os juros (!), exato o contrário do receituário burguês. Não é obra do acaso, de modo algum: há uma drenagem do capital-dinheiro que está acelerando a crise nacional, que também é produtiva, para salvar o sistema capitalista. Isto é uma articulação do imperialismo americano…

Como assim?

Lenin: Quem foram os principais articuladores da derrubada de Dilma (por quem, óbvio, não tenho mínima simpatia)? José Serra e Temer, dois informantes da CIA e da NSA. Sabe-se que o presidente do golpe chegou a reunir-se com a embaixada americana no país; o silêncio de Obama sobre o assunto também é mais que sintomático. Agora, vejamos os resultados: Temer está articulando o orçamento para drená-lo cada vez mais rumo ao buraco da dívida, anuncia a entrega do petróleo, busca a revogação imediata de diretos; José Serra procura dissolver o protagonismo brasileiro no Mercosul, tenciona as relações diplomáticas com a Venezuela, quer derrubar Maduro e quebra o trabalho tupiniquim nos Brics. Obra do acaso?

Mas tuas caracterizações, com todo o respeito, deixam várias lacunas, por exemplo: o governo Dilma não servia ao imperialismo? Ou era anti-imperialista como Rússia e China?

Lenin: nem uma, nem outra. Como governo burguês anormal, de frente-popular, com protagonismo de um partido de esquerda, as gestões do PT só eram admissíveis por uma razão: controlar o movimento de massas. Se não controla (e a gestão não tinha apoio sequer de 10% da população), o governo cai – isso foi a regra durante o século XX. Ou seja, o fim do apoio entre os assalariados é importante causa, mas isso por si só não explica a queda.
O imperialismo sente o cheiro de seu próprio corpo, e o odor indica apodrecimento de seus órgãos internos; já percebeu que Rússia, Índia, China, próximos também por questões geográficas, querem um maior pedaço do bolo da exploração de nossa classe, possuem projetos imperialistas. A ação norte-americana visa manter o Brasil em um lado da trincheira; não fosse isso, pra quê duas novas bases militares na Argentina?  Na visão marxista, não há anti-imperialismos e sim pró-novos imperialismos. Neste cenário, a política externa do PT foi a mesma de Vargas: flertar com os dois lados e ganhar algo com o jogo de afagos e chantagens, mas em momento de crise estrutural do capital tal postura sofreria retaliação. Porém, ao mesmo tempo, temos que diferenciar golpes contrarrevolucionários, como os militares ou fascistas, dos reacionários, como este palaciano. É preciso medir.
Por outro lado, como crise das categorias, a crise da fase imperialista leva a uma dificuldade de achar conceitos que expressem o momento, suas particularidades. Chamar Rússia, por exemplo, de semicolônia ou imperialista é quase que uma tarefa positivista. Assim, Dilma e PT representam a burguesia e são pró-norteamericanos, mas nem tanto assim: caíram por falta de apoio tanto do trabalho quanto do capital…

Confesso que não estou totalmente convencido desta caracterização.

Lenin: Rússia e Cuba apressaram-se em dizer que não reconhecem o governo. Mas talvez tenhamos de voltar para questão da economia, que, aliás, é um estudo abandonado pelos “marxistas” (sob o medo do tal “determinismo econômico” típico de um pseudo-marxismo). A crise econômica brasileira não é ainda, não exatamente, de superprodução, embora ela exista. A China desacelerou; e se começar naquele país uma recessão? As exportações brasileiras são destinadas para lá; isso gerará um duplo mergulho na crise que, por sua vez, exigirá uma solução no campo das classes.

Revolução?

Lenin: Sim, mas pode ser contrarrevolução também. Porém, há outro caminho que, infelizmente, desprezam. Os bonapartistas da China, Rússia, Cuba, Irã estão morrendo de medo de perderem o aparelho de Estado por ação das massas e, pior!, por de uma revolução socialista. Como quererão evitar? Eis o conflito internacional, o nacionalismo, o inimigo externo, o militarismo, o medo e outros recursos para travar ou retardar a revolução mundial. Achar que esta crise se resolverá sem poderosos terremotos é, no mínimo, uma burrice. Do ponto de vista tanto econômico quanto social a formação de blocos mundiais é uma tendência inevitável.

Se não for um problema, peço agora que foquemos no Brasil. Conectado com o mundo, qual a solução?

Lenin: Um partido mundial da revolução…

E os anticapitalistas, o que pensa sobre eles? Da Grécia, O Siriza empolgou o ativismo mundial.

Lenin: São mais reformistas que a antiga social-democracia, na medida em que sequer propõe alguma reforma duradoura; mas também são menos, na medida em que sequer fazem a defesa apenas verbal do socialismo. O fato de serem “anti” e não “pró”socialistas é um bom símbolo pós-moderno: não entendem que só se pode destruir construindo. Ou melhor, entendem, mas querem gerir o Estado burguês contra os trabalhadores, pela arte do engano. Nesse sentido, qualquer comunista consciente disso que vende ilusões nestes partidos é um traidor.

Nem voto crítico?

Lenin: Digamos aos trabalhadores, “votem neles, já que têm esperanças, façam a experiência; na urna, faremos os mesmos votos, mas eles trairão a nossa classe”. Até participar por um breve período dessas organizações pode ser bom, contanto que exista uma ruptura pré-programada.

No entanto, nenhum partido leninista ganhou real destaque em algum país desde 2008… Isso se deve, como dizem, à estrutura rígida do modelo proposto pelo senhor?

Lenin: Isso é campanha caluniosa. A possibilidade de formar frações sempre existiu no partido. Darei alguns exemplos: durante a guerra civil, quando uma dúzia de exércitos imperialistas invadiu a URSS – uma situação difícil, portanto –, havia frações e grupos no seio da organização bolchevique. Em alguns casos limites, porque a existência física do partido e de seus membros estava em jogo, as lutas fracionais eram encerradas, mas com garantias naturais de seu retorno em um momento próximo. Eu mesmo rompi a disciplina partidária por mais de uma vez. Em 1917, em Abril, militei publicamente contra a política do partido de “apoio crítico ao governo provisório” e de “reunificação do partido com os mencheviques”. Assumi o risco na certeza de que se estivesse certo minha ação seria compreendida, cedo ou tarde. Pouco antes de morrer, escrevi uma carta secreta ao CC do PC da Ucrânia chamando a uma luta contra Stalin. Porém, há critérios: nunca fracionar secretamente, apoio informal nunca poderá transformar-se em articulação por fora dos organismos, toda luta fracional tem de ser aberta nem que seja também ao público não-partidário; em caso de impossibilidade de luta aberta, formar um novo partido, por isso eu disse durante a preparação de Outubro que estava disposto a romper com o partido se necessário fosse. Dizer que o centralismo democrático é igual ao centralismo burocrático é uma mentira: o partido deve representar um sintoma de socialismo, deve permitir lutas respeitosas de ideias.
Quando à sua provocação. O partido era frágil, desconhecido e pequeno até a revolução de Fevereiro, e só conseguimos ser majoritários a partir de agosto. O comum é os revolucionários serem uma pequena minoria por anos a fio ou décadas; apenas situações pré ou revolucionárias abrem a possibilidade de crescermos.
O problema de vocês são outros, funcionam tal qual uma empresa. Imaginemos um empresa de call center: o gerente contrata jovens para trabalhar na empresa até eles adoecerem; trabalham seis meses, um ano, até o momento em que os substitui por novos operadores. O gerente fica ali, preservando-se no cargo, dominando o conhecimento da gestão, não deixando os subordinados “ficarem sabidos demais”. O mesmo ocorre nos partidos centralistas “democráticos”: os dirigentes captam centenas de jovens, impõe-se grandes metas "viáveis", os envolve em um praticismo revolucionário até cansarem, estes saem por inúmeros motivos aparenciais, são substituídos por uma nova leva-de-militante e, assim, os comitês de direção se perpetuam, controlam o aparato, criam uma dependência da base em elação às habilidades da direção (eles odeiam socializar conhecimento militante com a base) e perpetuam-se na direção com seus cabelos brancos. A restruturação produtiva adentrou nos partidos de esquerda, ocorreu neles também.

Então, como organizar um partido desse tipo diante da onda conservadora?

A começar que não existe “onda conservadora”, isso é uma tese dos pelegos do PT. Toda situação pré-revolucionária o é porque é uma situação de desespero da nossa classe. Simples assim. Porque sente desespero, porque vê a degeneração social bater sua porta, o operário médio, que odeia grevar, vai à luta. Senão, como explicar as milhares de escolas ocupadas, as greves gerais de servidores nos estados, as ocupações de fábrica, a escalada ascendente de greves ano a ano, a desmoralização do petismo? Ora, os burocratas queriam o quê? Toda crise social é uma situação de conflito, onde a classe operária é atacada e não, no começo, atacante. Isso revela o ódio dos pequenos burgueses ao conflito: sentem “dó” dos precários, mas os querem passivos, sem stress social. A crise econômica, as lutas, a politização das classes médias, as divisões interburguesas, a crise do regime, a crise do PT (com a CUT, principal trava ao movimento de massa) revelam uma situação pré-revolucionária; “onda conservadora” é uma elaboração idealista, antimarxista. E mais, Gramsci era um revolucionário, mas seus seguidores invertem o método: no lugar de partirem da economia para observar a luta de classes, que é o motor real da história, e daí irem às superestruturas (Estado, consciência, etc.), fazem o contrário, começam a análise pela superestrutura! Isso tem uma razão de classe oculta: são servidores do Estado mais ou menos bem pagos e/ou burocratas de sindicatos, ou seja, amantes da superestrutura, que os sustenta.
Dito isso, um pequeno e firme partido de quadros é tarefa imediata. Um partido comunista não pode ter soldados, todos devem querer ser generais qualificados; por isso, é preciso um crescimento intensivo – captação e formação de quadros – antes do crescimento extensivo. Com o tempo, estruturado e com políticas corretas, abrir-se-á a possibilidade de ganhar milhares de milhares de ativistas honestos e talentosos, mas ligados a grupos centristas e reformistas. O tempo é limitado.

Quanto ao tempo, há um grande debate sobre a necessidade, ou não, de uma frente de esquerda. Qual a tua posição?

Lenin: Mais uma vez, não é complicado, embora as pessoas não gostem de saber que certas coisas são simples. PSTU, PSOL, PCB e outros partidos da oposição de esquerda ao PT são muito minoritários, quase marginais. Não podem formar, por exemplo, uma greve geral. O que fazer? Uma frente onde lutarão por pautas consensuais, em comum: 1) eleições gerais; 2) contra os efeitos da crise; 3) preparar três dias de luta nacional com pautas concretas; 4) impulsionar associações por emprego. “Frente” é uma unidade de ação prolongada, porém com prazo de validade: cada organização deve produzir seus próprios materiais, os partidos mantêm suas autonomias, a crítica interorgnizações deve ser livre.
Isso me obriga a comentar a questão das palavras de ordem. Não temos condição de fazer uma greve geral porque a burocracia domina quase a totalidade dos sindicatos, mas pode prepara-la exigindo três dias de paralizações por todo o país; é impossível, agora, formar organismo de poder, mas podemos impulsionar lutas e preparar as sementes, que são estas: “comitês de base dos trabalhadores contra a crise” que se devem formar nos bairros, com ajuda dos desempregados, e nos locais de trabalho. Serão organismos de luta, independentes dos sindicatos, proporão a abertura das contas das empresas, apresentarão propostas práticas, impulsionarão as greves, etc. Se está correta a tese de que a recessão chinesa gerará um duplo mergulho brasileiro na crise, então a formação desses comitês de luta, paralelo aos sindicatos, estará na ordem do dia.

Isso é realmente possível?

Lenin: Sim, e o país tem duas vantagens: entre 2010 e 2014, transição de uma situação não-revolucionária para uma pré-revolucionária, o movimento de massas lutou muito e obteve, em geral, inúmeras vitórias. Isso foi educativo, preparador. A segunda, a maioria dos sindicatos getulhistas são burocráticos demais para seguir a base.
Permita-me dar um exemplo. Em agosto de 1917 as condições para uma revolução socialista estavam maduras “em si”, porém o partido atrasou este fato até outubro; por quê? Precisamos adiar a tomada do poder porque o partido ainda estava despreparado, porque precisávamos espalhar os sovietes no campo, porque precisávamos crescer mais. Em outro momento, precisamos adotar a NEP, elementos capitalistas, um passo atrás, para poder fazer avançar a economia planificada. Não adianta dar saltos forçados para frente sem condições de suportar as consequências disso. É momento de preparar o salto, não de saltar.
Lutar em defesa dos salários, contra o corte de direito, por um plano de obras públicas, redução da jornada sem redução de salário e gatilho salarial são consignas “simples”, mas de potencial enorme. Claro, está aberta a possibilidade – e uma luta correta agora certamente abrirá – para a adoção de propostas mais avançadas, incluso a de guerra civil contra os patrões e os partidos burgueses.

Lenin, o senhor é admirado por suas glórias. Para fins históricos, quais os seus maiores erros?

Lenin: erros nem sempre são oportunistas. Cometi muitos, a maioria corrigida assim que os percebi. Permita-me destacar três: 1) fui revolucionário na questão política, mas conservador nas questões de arte, cultura, educação, ciências, etc.; 2) percebi a degeneração da sociedade burguesa por meio da degeneração das reações sexuais, porém não vi o controle do sexo, que é uma necessidade humana, como um dos mecanismos do controle de classe; 3) o mais importante: na fase final da guerra civil quase o capitalismo foi restaurado, então limitamos a luta interna já que o partido poderia quebrar-se em novos pedaços. Preocupados, limitamos o debate interno, mas isto abriu espaço para a burocratização do partido e do Estado. Pois bem; hoje eu faria diferente: que o partido rachasse, que desse racha formasse novos partidos soviéticos, percamos o poder em nome dos princípios, antes capitalismo restaurado que minha classe sem o poder de Estado. Às vezes, precisamos correr o risco de perder tudo, até a vida, em nome dos princípios.

Qual conselho dá aos militantes do século XXI, em especial aos jovens?

Lenin: Parem de ser covardes, passivos, mediadores; arrisquem-se. Com responsabilidade e ciência, mas ousem. Formem partidos dos operários, dos precários, da periferia urbana. A juventude filha da trabalhadora, sem esperanças com o futuro, vive “uma vida emocionante, porém curta” envolvendo-se com o tráfico, com o roubo, com o risco, com o pequeno-grande prestígio, etc. Imagine se dedicasse essa raiva, essa energia, esse fetiche da clandestinidade e do risco para uma boa causa, para a esperança? Precisamos ganhar estes jovens, a geração dos “de baixo” mais inteligente da história humana, para um projeto onde se realizem. Disciplina não é viver só em torno do projeto, isso é clubismo; é possível dedicar-se à revolução e jogar bola nos finais de semana com os amigos do bairro. E estudem, camaradas, estudem muito.
No teu caso específico, camarada João, melhor ir pra casa, viver a vidinha, relaxar, cuidar de si. A gente deve saber a hora de parar, que tua parte foi feita.

Com certeza essa parte não irá para a entrevista…

Lenin: Irá, que conheço o teu tipo. Não me entenda mal, gostei de você, mesmo com este péssimo “espírito bruto dos russos” que carrego. Talentoso, porém incapaz e arrogante.

Nossa…



(Texto editável.)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

POR UMA POLÍTICA MARXISTA DIANTE DOS ATAQUES DO ISIS NA EUROPA



POR UMA POLÍTICA MARXISTA DIANTE DOS ATAQUES DO ISIS NA EUROPA


O imperialismo europeu, com seus governos, alegra-se com os atentados: achou um meio para apaziguar a luta de classes, justificar a sanha militar, unificar a “nação”, controlar as eleições e introduzir medidas antidemocráticas à democracia burguesa. Qual a solução? Qual política os comunista precisam levantar?

Elaborar política necessita ciência e imaginação. Fato é que a “democracia” é um grande e forte valor na consciência dos assalariados europeus, e, especialmente, dos da França; precisamos aproveitar o lado progressivo disso: cerceamento da liberdade em busca da paz? Não! Os revolucionários propõem:

• Democratização imediata do armamento e do direito à autodefesa!
• Comitês operários e populares de segurança e vigília nos bairros!
• Trabalho, nesta tarefa, fraterno e conjunto com os imigrantes!
• Para evitar cooptação do ISIS: – Salário-auxílio aos irmãos refugiados!
• Para destruir o ISIS, envio imediato de armas e munição aos rebeldes e aos curdos!
• Respeitar os trabalhadores sírios e iraquianos: intervir na guerra é terrorismo imperialista!
• Abaixo qualquer medida de diminuição dos direitos democráticos!
• Que a EU, de conjunto e unificada, aprove o acolhimento integral, sem fronteiras, de imigrantes, com um salário-auxílio inicial! Que estas medidas sejam tomadas em coordenação continental.
• Xenofobia é a parteira do nazismo e o alimento do terrorismo!

Pontos como o auxílio-salário podem, ao mesmo tempo, 1) ajudar os imigrantes; 2) dificultar o recrutamento ao ISIS; 3) ajudar a amortecer o perigo de deflação na Europa, aumentando o consumo; 4) unificá-los e mobilizá-los, com apoio dos nativos. Diante de toda tentativa de qualquer governo, mesmo “progressivo” ou “socialista”, de cercear as poucas liberdades; responderemos com mais democracia, mais democracia, mais democracia: o direito à democratização da força, fim do monopólio da violência, armamento popular, integração sócio-política dos refugiados. As palavras de ordem poderão ganhar nova dimensão – é preciso que os fatos as promovam – em caso de novos ataques. Cada uma das consignas podem ser usadas ou combinadas, prioritariamente, a depender das mudanças de conjuntura; não sendo, portanto, uma “receita de bolo”: quanto mais duros e frequentes forem os ataques terroristas, a insegurança e as medidas policiais do Estado; na outra ponta, mais os revolucionários devem radicalizar suas propostas.

Do ponto de vista teórico, o que ocorre no mundo mostra a superioridade e a necessidade da reorganização da segurança pública em torno de um sistema de milícias operárias-populares. O programa que apresentamos potencialmente serve, portanto, como um programa de transição numa Europa instável e pré-revolucionária.

Pandemias como sintomas da crise sistêmica




[O texto abaixo foi atualizado desde 2016, e será novamente perante o corona vírus]

RISCO DE PANDEMIAS

“Nossas prioridades são inclinadas pelos imperativos do mercado. A vacina contra a malária é a maior necessidade. Mas quase não tem financiamento. Mas se você está trabalhando com a calvície masculina ou outras coisas você pode conseguir mais recursos para pesquisa por causa da voz que tem no mercado, mais que algo como a malária.”
Bill Gates.

A tese deste capítulo é que as condições do capitalismo hoje colocam, de modo mais intenso que outras fases do sistema, a possibilidade de epidemias e pandemias. Vamos aos fatores que produzem tal conclusão:

1.    Diferenças entre ricos e pobres geram problemas alimentares, de higiene, de acesso à informação, de hábitos, de salubridade. O aumento da miséria relativa desde 1970 e, em destaque, desde 2008 colabora no sentido do adoecimento.

2.    A urbanidade atual, que alcançou altíssimo desenvolvimento, reúne uma enorme massa urbana, facilitando a contaminação geral.

3.    O fluxo humano e de mercadorias por todo o mundo interliga-nos também do ponto de vista viral. Lembremos que a aviação comercial é recentíssimo na história.

4.    Com a automação da produção, alta capacidade produtiva, a indústria farmacêutica necessita criar demanda e bloqueia ou atrasa pesquisas cujo objetivo é a cura.

Richard J. Roberts, Prêmio Nobel de Medicina, denuncia em entrevista:

Eu verifiquei a forma como, em alguns casos, os investigadores dependentes de fundos privados descobriram medicamentos muito eficazes que teriam acabado completamente com uma doença ...
[…]
Porque as empresas farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas como em sacar-lhes dinheiro e, por isso, a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crónica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação.
[…]
Mas é habitual que as farmacêuticas estejam interessadas em linhas de investigação não para curar, mas sim para tornar crónicas as doenças com medicamentos cronificadores muito mais rentáveis que os que curam de uma vez por todas. E não tem de fazer mais que seguir a análise financeira da indústria farmacêutica para comprovar o que eu digo.
[…]
Ao capital só interessa multiplicar-se. Quase todos os políticos, e eu sei do que falo, dependem descaradamente dessas multinacionais farmacêuticas que financiam as campanhas deles. O resto são palavras… (Roberts, 2011)



5.    A crise do meio ambiente (alta concentração de carbono no ar, por exemplo) por si faz surgir novas doenças, além de tornar mais frequentes as que existem.

6.    Há esgotamento do atual método de combate às doenças virais e bacterianas:

De acordo com especialistas, as superbactérias, que se desenvolvem por causa do uso em excesso de antibióticos em humanos e na produção agropecuária, são uma das maiores ameaças para a Humanidade. Cepas de bactérias resistentes aos mais potentes medicamentos existentes já foram identificados em diversos países, incluindo o Brasil. Estimativas apontam que, sem combate, esses micro-ogranismos podem matar 10 milhões de pessoas por ano a partir de 2050.
— É irônico que uma coisa tão pequena provoque tamanha ameaça pública — disse Jeffrey LeJeune, pesquisador da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA, em entrevista ao “Guardian”. — Mas ela é uma ameaça global à saúde que precisa de uma resposta global. (Globo, 2016)

As bactérias resistentes a antibióticos também ocorrem na criação de animais para consumo. É um risco latente de infecção tanto de desses seres quanto de humanos.

7.    O processo de separação do valor de uso do suporte e o valor de uso “poético”, sob a forma capitalista, geram: 1) produtos com baixo valor nutritivo (exemplo de um suco artificial e barato); 2) estimula a adoção de substâncias nociva à saúde humana (para dar cheiro, cor, gosto etc.).

Qual a fonte do valor? O trabalho. Porém a força de trabalho é em si natural, depende da absorção de outros materiais, de energia, de alimento. O problema da qualidade nutricional dos alimentos atuais afeta o rendimento de trabalho por diferentes meios.

8.             A saúde privada negligencia custos em nome do lucro. Exemplo: as vacinas que perdem potencial por problema de aquecimento são prontamente substituídas no serviço público enquanto no setor privado tende-se a evitar tal medida, que gera nova despesa.

Surge a necessidade de um sistema mundial público e gratuito de saúde – no socialismo. Tal empreendimento social tratará tanto de prevenção e atendimento quanto das medidas de produção (medicação, nutrientes em alimentos, etc.).

Bibliografia

Globo, O. (21 de 09 de 2016). Paises da ONU assinam compromisso global contra superbactérias. Acesso em 11 de 02 de 2020, disponível em O Globo: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/paises-da-onu-assinam-compromisso-global-contra-superbacterias-20149803#ixzz4OV186xgg
Roberts, R. J. (08 de 07 de 2011). "As farmacêuticas bloqueiam medicamentos que curam, porque não são rentáveis". Acesso em 11 de 02 de 2020, disponível em Esquerda: http://www.esquerda.net/artigo/farmac%C3%AAuticas-bloqueiam-medicamentos-que-curam-porque-n%C3%A3o-s%C3%A3o-rent%C3%A1veis







Versão antiga, 2016, esboço.



PANDEMIAS COMO SINTOMAS DA CRISE SISTÊMICA


Consideremos: o capitalismo possui a lei da tendência geral à urbanização.



Empiricamente, observamos o aumento de epidemias e pandemias. O fanatismo religioso chama "sinais do apocalipse"; a esquerda dogmática afirma ser "um dos tantos males do capital". A segunda resposta está incompleta (embora mais exata), pois o aumentar do adoecimento está relacionado ao modo de produção ou, mais precisamente, à necessidade de superá-lo. Assim, em suas fases finais de decadência: o Egito experimentou "pragas" (romantizadas na Bíblia); o império romano sofreu com o envenenamento por chumbo e outras doenças; o feudalismo conheceu, por exemplo, a peste negra. Tais fenômenos tiveram também como origem a concentração precária de humanos nos campos de trabalho escravo, feudos e cidades. A partir disso, perguntemo-nos como o fenômeno se manifesta no capitalismo, as causas; para melhor organização, exporemos a lista a seguir:

A) Diferenças entre ricos e pobres geram problemas alimentares, de higiene, de acesso à informação, de hábitos, de salubridade;

B) A urbanidade atual, que alcançou altíssimo desenvolvimento, reúne uma enorme massa urbana, facilitando a contaminação geral;

C) Junto ao ponto b, o fluxo humano e de mercadorias por todo o mundo interliga-nos também do ponto de vista viral;

D) Com a automação da produção, alta capacidade produtiva, a indústria farmacêutica necessita criar demanda, ou seja, adoecimento (por criação real e/ou virtual de doenças) -- e bloqueia pesquisas cujo objetivo é a cura;

E) A quantidade de gente precária e concentrada na urbanidade é enorme -- sendo elemento importantíssimo para futuras revoluções socialistas. A burguesia necessita, portanto, controlar a natalidade (tal como, por exemplo, o poder egípcio ao matar os filhos de hebreus no relato histórico-bíblico), embora a baixa fecundidade torne-se um problema real em alguns países ricos;

F) A crise do meio ambiente (alta concentração de carbono no ar, por exemplo) por si faz surgir novas doenças, além de tornar mais frequentes as que existem.

São tarefas do socialismo:

A) Desenvolver uma nova relação homem-espaço: unir, fundir, o melhor da urbanidade com o melhor do campo;

B)Desenvolver uma nova cultura alimentar, de higiene e saúde preventiva;

C) desenvolver um método de saúde, cuidado medicinal e cura que, entre outras vantagens, primará pela rapidez de resultados;

D) Desenvolver um plano consciente e democrático de incentivo à gestação agradável, responsável e acolhedora;

E) Tornar a relação homem-técnica-natureza sadia;

F) Restaurar a importância do Ômega 3 na alimentação geral (este "elemento" formou literalmente o homo sapiens. Quando aprenderam a cozer -- ato de trabalho manual --, nossos ancestrais adotaram uma dieta nova: animais de pastoril [bois, porcos, aves, etc.] e peixes, ou seja, rica e nova alimentação baseada neste fator [Ômega 3], que incluso nos ajuda no desenvolvimento intelectual. Essa mudança digestiva, baseada no trabalho, deu origem à nossa atual espécie. Porém, com a agroindústria alimentando os animais citados com ração ocorre o exato contrário: as carnes dos animais tornam-se ricas em Ômega 6, que não apenas é diferente do ÔMEGA 3 como também atrapalha o trabalho deste último em nosso organismo -- termos um fator alimentar de adoecimento).

A concentração humana citadina, urbana, amadureceu para a revolução comunista. Esta lei objetiva do capitalismo, dos burgos medievos para as megalópoles, como enormes barris de pólvora, se expressa em inúmeros sinais. Epidemias e pandemias, a partir da grande crise iniciada em 2008, serão a regra e serão estímulos a desesperos sociais e luta de classes. Temos todos os sintomas de uma crise sistêmica, de um organismo que merece morrer; ou nossa espécie correrá -- já corre -- enormes riscos. Assim, ou destruímos o sistema capitalista ou nos destruiremos.



POR UM SISTEMA MUNDIAL E UNIFICADO DE SAÚDE PÚBLICA -- NO SOCIALISMO!


João Paulo da Síria.

TODOS OS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS TÊM PRAZO DE VALIDADE




TODOS OS PARTIDOS REVOLUCIONÁRIOS TÊM PRAZO DE VALIDADE

Por que todas as organizações bolcheviques, ao longo de um século, cedo ou tarde, degeneraram? Esta é uma pergunta cuja resposta apenas pode ser descoberta por fora do dogmatismo ou da fé cega; sobre este tema nos debruçaremos.

Uma avaliação objetiva revela o padrão. Mesmo o mais revolucionário dos partidos da história, dirigente da mais incrível revolução social, degenerou dez anos após seu próprio heroísmo. Assim também, a organização diretamente instruída por Engels, o poderoso Partido Social-democrata Alemão, tornou-se o maior símbolo reformista de todo o mundo. Para abarcarmos um terceiro exemplo, entre centenas, o SWP norte-americano, educado com imensa atenção por Leon Trotsky e Cannon, degenerou-se quando da renovação dos quadros. O que faz de partidos realmente revolucionários caricaturas de si, centristas e reformistas?

O materialismo histórico ensina-nos: as superestruturas – como uma organização política – são uma substância gerada pelas relações econômicas e sociais em uma realidade dada. Claro que, uma vez existente, a “forma” também influencia o “conteúdo” e é um elemento essencial, importante; porém: em primeira e última instância, as organizações humanas têm sua natureza determinada pela base sobre a qual se erguem e que as geram.

Vamos para a linguagem prática; um “centro comunista” pode ter três caminhos:
1. Dirigir sua classe em uma revolução mundial, e assim fazer surgir uma sociedade onde partidos são descartáveis, definham;
2. Ser absorvido pela sociedade capitalista , adaptando-se: de um vírus torna-se “mero” parasita mutualista;
3. Ser destruído.

Percebemos o fim do conteúdo-forma como algo inevitável; a questão, portanto, centra-se em como isso irá acontecer – de modo nobre ou mesquinho?

Aí está a questão. Uma organização centralista e democrática tem um período de vida – de sua essência – mais ou menos longo a depender da realidade concreta e de suas decisões; significa a possibilidade de adiar por muito tempo o fim de sua natureza-essência revolucionária, mas não de modo indefinido:
a) O Partido Social democrata-Alemão, e a maioria da II Internacional, degenerou-se com a mudança da realidade – era inevitável. Com o fim do período progressivo, reformista, do capital e o início de uma nova etapa e época, essas formas de luta mudaram-se;
b) Tão logo entramos em uma etapa contrarrevolucionária – derrota da segunda revolução alemã, fascismo na Itália, isolamento da URSS, etc. –, o stalinismo degenera todos os partidos revolucionários surgidos na etapa revolucionária anterior;
c) Pós-II Guerra, o Estado de bem-estar social na Europa, a prosperidade hegemônica nos EUA, as ditaduras estalinistas nos países de base camponesa (China, etc.) fecharam a situação revolucionária aberta com a derrota do nazi-fascismo. Salvo heroicas exceções, o leninismo-trotskismo acomodou-se, degenerou-se – também.

Percebemos, assim (e este é um importante foco do texto), que as mudanças de situação, etapa e época – ou seja, em principal da base social-econômica da superestrutura – mudam, sempre e em alguma pesada medida, os organismos políticos operários; ao mesmo tempo, são medições variáveis: muito mais fácil resistirem a uma mudança de situação a uma de etapa ou época – em real, imensamente mais fácil.

Reconhecer este limite ajuda-nos. De qualquer maneira, a formação de partidos com democracia e centralismo, de quadros, de operários e precarizados, da periferia urbana, de gente amante da teoria e da prática, pode fazer o projeto alcançar seu fundante objetivo.

Quando o programa de um partido torna-se atrasado e obsoleto, muda-se o eixo e degenera-se. Tudo o que é sólido desmancha-se no ar; reivindicar uma forma-organização não supõe seu fetiche, sua cristalização ideal – ao contrário, exige alerta. Toda e qualquer organização revolucionária tem prazo de validade, definha. E resolvemos o problema assim, sem atalhos: adiar esta possibilidade tanto quanto possível, precaver-se; reorganizar-se, ruptura, sempre quando necessário; e que este definhamento ocorra apenas, esperamos, por sua inutilidade quando no socialismo avançado.

Por último, dois dedos sobre um debate necessário. Estamos diante de uma crise sistêmica, a mais importante da história do capitalismo. Marx acreditava que a crise orgânica no final do século XIX, mercantilização total do mundo e superprodução global, geraria a superação do sistema – e errou. Nunca como agora o capital tornou-se tão autodestrutivo, mas precisamos, ainda assim, de uma organização bolchevique internacional; a crise estrutural do valor somente facilita o caminho, as possibilidades de superação. Chegaremos ao socialismo? Não sabemos. Rosa Luxemburgo percebeu a possibilidade da barbárie; Nahuel Moreno, a do holocausto ou extinção humana. Fato é que caminhamos para o colapso do modo de produção atual; e todo colapso histórico é não um susto, mas um processo em si. Se é verdade que as condições para o socialismo estavam maduras no início do século passado; hoje, com a urbanização elevada no mundo, industrialização dos principais países atrasados e maior interconexão/inter-relação entre as nações, a revolução permanente tornou-se uma possibilidade muito mais intensa – relativizou-se as desigualdades internas entre os diferentes territórios. O século XXI é o soar do sino da revolução, que voltou a bater: socialismo ou fim da humanidade! O século XX, esse momento intenso, foi nosso “ensaio geral”.

***
João Paulo da Síria

NOTAS DE FIM:
Mesmo indiretamente como no caso do PC da URSS.

Situação: define-se a partir da conjuntura econômica somada dialeticamente com os estados da luta de classes, das variadas instituições e da superestrutura subjetiva (moral, instrução, filosofias, etc.);
Etapa: define-se pela capacidade e natureza organizativas reais ou latentes das diferentes classes antagônicas;
Época: divide-se em duas – 1) progressista, reformista, quando um sistema está saudável, em pleno desenvolvimento das forças produtivas; 2) revolucionária quando o desenvolvimento das forças de produção exige uma nova sociedade, uma nova superestrutura, um novo sistema socioeconômico.

Reformistas agradam-se com a tese “o capital, depois da crise, dará um jeito de se manter”; no mesmo sentido, agarram-se à ideia “crises cíclicas” como se fossem estas os únicos tipos de crise, pois após a queda – mentem eles aos trabalhadores – “tudo (supostamente) irá melhorar”. Infelizmente, revolucionários de sangue ativo compram essas ideias, uma ou outra ou ambas. A destruição do valor-capital pode gerar a destruição da própria humanidade? O fim da nossa espécie é uma hipótese muito provável, todos nós sabemos. A ciência às vezes é pouco intuitiva: se uma tese prova-se correta, só podemos lamentar daqueles que as negam porque “isso é um absurdo”, porque a realidade é absurda; não temamos o futuro. Como já apontava Nahuel Moreno, uma nova Teoria da Revolução é necessária para que possamos mudar o mundo.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

FIM DO CAPITALISMO: TRÊS CAPITAIS, TRÊS ERAS, TRÊS CICLOS

FIM DO CAPITALISMO: TRÊS CAPITAIS, TRÊS ERAS, TRÊS CICLOS

Neste blog, tenho colocado as primeiras versões-betas de um futuro livro, “Marxismo e Capitalismo Hoje – a Revolução Permanente no século XXI”. Diante da crise e do tempo até a conclusão do projeto, disponho as versões iniciais; a seguir, um dos debates introdutórios.

FIM DO CAPITALISMO: DIALÉTICA DO VALOR-CAPITAL



O tema sobre limites históricos do sistema mercantil é alvo de inúmeros debates e polêmicas; vamos, a partir de outras contribuições e tentando superá-las, adentrar na questão, na sua dinâmica. Para isso, convido ao leitor a observarmos três elementos do capital e do capitalismo:

1.      Capital bancário, comércio de dinheiro ou portador de juros;
2.      Capital produtivo;
3.      Capital comercial.

Ou, em real e em essência:

1.      Capital-dinheiro;
2.      Capital-produtivo;
3.      Capital-mercadoria.

Os três objetos acima apontados serão nossos guias; adentraremos na história da humanidade, do capitalismo e do capital. Para anteciparmos, será a seguinte a pergunta deste artigo: como os capitais organizam-se, interagem, rumo à própria destruição, para o desenvolvimento da totalidade econômica? Observaremos, portanto, o amadurecimento do corpo vivo; vejamos:

a)      Fase I. Com as navegações, século XVI, iniciamos o comércio mundial. Neste momento, a produção e o setor bancário são secundários, frágeis, orbitantes; seus próprios desenvolvimentos seguem o lastro direto da compra-venda;
b)      Fase II. Com a máquina a vapor, século XVIII, desloca-se o centro de gravidade do capital: a produção revoluciona-se, primeira revolução industrial. Surge então, da união nova capitais bancário-produtivo-comercial, o chamado capital industrial. Os próprios setores de comércio e de juros evoluem ao surgir a tendência, impulsionada pela centralidade produtiva, à mercantilização total do mundo e, pela primeira vez na história humana, à superprodução;
c)      Fase III. Com a crise orgânica no final do século XIX (por excesso de capital produtivo nos países centrais e mundialização da relação mercantil), a eletricidade e as renovações técnicas; a relação central-orbitante altera-se novamente: o setor bancário ou essência capital-dinheiro adquire força necessária para dirigir, submeter e desenvolver os outros dois capitais. Temos, na fase imperialista, de monopólios e oligopólios, o capital financeiro (e assim, a produção e a distribuição também evoluem). Este modelo, na falta de uma revolução mundial, junto à especulação, atingiu a máxima potência com o capital fictício/capital parasitário (em síntese: busca de rendimento, de “juros” ou lucro, desligada da e subordinando a produção, diferente do típico ao capital bancário, ao investir, por exemplo, em dívidas públicas – a nosso ver, o desenvolvimento do chamado capital especulativo ocorre como consequência da fase/modelo imperialista, uma intensificação)[i].

A mudança de lastro (chamemos assim), ou seja, de centralidade-guia em cada uma de suas fases do desenvolvimento capitalista, parece oferecer-nos respostas a inúmeras perguntas; uma delas: a atual potência do capital-dinheiro revela-se base e origem oculta, na essência, do fim da equivalência dólar-ouro. Harvey (1992) dá-nos uma pista nesse sentido, mesmo não intencional, por meio de sua suspeita:

“Estou, portanto, tentado a ver a flexibilidade conseguida na produção, nos mercado de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções financeiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário. Isso implicaria que o sistema financeiro alcançou um grau de autonomia diante da produção real sem precedentes na história do capitalismo, levando este último a uma era de riscos financeiros igualmente inéditos.”[ii] (p. 181)

Continuemos a construção.

Peço espaço ao leitor para falarmos sobre dialética, o abstrato-concreto. A dialética marxista difere-se, por exemplo, dos métodos indutivo e dedutivo; partimos de uma realidade dada, observável, total, concreta para – a partir daí – estudar e compreender as partes constituintes deste objeto estudado; logo após, unimos-lhes, conectando-os, percebendo suas interinfluências e interrelações; ou seja, voltamos ao concreto, mas em uma dimensão superior. Isto nada mais é que seguir o fluxo da própria dinâmica da matéria; um exemplo: todas as ciências eram, em estado inferior, resumidas na filosofia; depois, foi necessário separá-las e desenvolvê-las individualmente; agora, a tendência é reuni-las na físico-química, na psicologia (ciências sociais somadas à biologia), no marxismo (fusão de todas as ciências sociais em uma única ciência social, incluindo certa influência da biologia, etc.).

O mesmo ocorre, em sua permanente inter-relação, com o capital. Tivemos três centros de gravidade (dialética central-orbitante) durante seu desenvolvimento interno, que agora caminha para a fase final de decadência, sua senilidade. As três partes constitutivas de uma única totalidade/capital, em nossa época, evoluíram imensamente, como de suas tendências naturais. Sempre que um centro de gravidade beirava certo ápice-crise, ocorria o deslocamento, graças as suas interinfluências e interdependências.

A dialética, por esta análise, aponta para a fusão: fim da relação alienada entre os capitais e de suas autonomizações relativas. Quando Lenin insiste, em “Imperialismo – Fase Superior do Capitalismo”, em levantar a tendência à fusão dos capitais bancário e produtivo, observa, em verdade, o futuro e a lei do capitalismo. Os setores bancário, produtivo e comercial tendem – permanentemente, hoje – à união, confluência e integração; ou seja: concentração e centralização[iii] (ver nota de fim sobre dialética). Basicamente, o valor faz este chamado. E a este mesmo chamado respondemos e percebemos: a fusão total de capitais – fim da relação e domínio alienados entre eles – só será possível com a destruição do capital, com a revolução socialista planetária, com o fim do comércio, com a extinção do trabalho manual e assalariado, com democracia operária e socialista, com economia planejada e propriedade coletiva[iv].

Então: de um concreto simples, do central capital-mercadoria, avançou-se para a relação alienada, o capital industrial ou centralidade do capital-produtivo, e hoje pretende a integração não-alienada ou, dito de outra forma, fase imperialista que alcançará seu objetivo pela negação, pela revolução mundial.

Neste sentido, parece-nos, o desenvolvimento do valor-capital finalmente encontrou um limite. Não cairá, porém, por velhice avançada: há a possibilidade de ainda mais concentração e centralização, incluindo maior controle sobre o capital comercial e da área de serviços e maior independência da produção em relação à matéria-prima[v]. Tal hipótese só será possível após duríssima luta de classes, com derrota do proletariado, com instauração de relações semi-escravistas; por outro lado, assim como a fase final do império-economia romana, para fins de comparação, o mundo e as relações entre estados-nacionais serão cada vez mais instáveis e sob dificuldade de estabelecer um centro de gravidade do poder (em profundidade, isso ocorre pela necessidade de superação da contradição economia mundial/fronteiras nacionais). Enfim, apesar da aparência[vi] pós-Muro de Berlim, na essência a realidade – na etapa revolucionária – amadureceu para o socialismo.

Em suma, na centralidade do comércio (fase I) o valor era uma qualidade, um adjetivo da mercadoria; quando há o deslocamento para a produção (fase II), revolução industrial, o valor torna-se/consolida-se adjetivo substantivado, um substantivo, o capital ou valor-capital; em nossa época (fase III), imperialista e de decadência do imperialismo, onde o setor bancário – em verdade: capital-dinheiro – torna-se centralizante, o valor deseja ser um substantivo abstrato (o capital especulativo e a digitalização do dinheiro, por ex.) ou um verbo que se faz carne (a robótica, por ex.) – embora impossível, parte de sua crise.

Se compreender é superar (Hegel), resolver é transformar.

CONTRADIÇÃO APARÊNCIA-ESSÊNCIA/CAPITAL-VALOR

Este livro pretende ser acessível tanto ao leitor iniciado ao marxismo quando ao não; agora, para uma leitura agradável, precisamos redobrar a vigilância, que dialogaremos a partir de certos processos de abstração. Por isso, espero oferecer clareza e concisão; seguiremos ao próximo parágrafo.

Em nossa época, a relação valor-de-uso e valor tem produzido um novo fenômeno: ao dominar o duplo caráter da mercadoria, o valor consegue uma façanha nova, qual seja: os valores-de-uso tendem a desprender-se do suporte. Ilustremos: quantos objetos das décadas de 1980 e 1990 cabem hoje em um único e pequeno aparelho? Quantas utilidades, por meio de aplicativos, pode haver em um celular? Mesmo simples produtos naturais como fruta transformável em suco pode ser substituído por um pó químico que simula o sabor e o cheiro do produto – valor-de-uso – original. Isto ocorre pelo que explicamos, a supremacia do valor(-capital), mas não somente.

O que descrevemos anteriormente manifesta uma necessidade de valorização do valor, que tende a desaparecer; este substantivado protagonista da sociedade gera a aparência, ou seja, o capital. Como explicamos em uma das notas de fim, pode haver contradição nessa relação: neste caso: o desenvolvimento dos capitais tende a encerrar a relação “valor gerado pelo trabalho abstrato[vii], geral, medido pelo tempo de trabalho (socialmente necessário para a reprodução de uma mercadoria)”. Ou seja: o capital caminha para a) diminuição constante do tempo necessário para criar um produto; b) substituição do trabalhador ou trabalho vivo, que agrega/gera valor na produção, pelo maquinário (e matéria-prima) ou trabalho morto, que não se pode explorar e por isso apenas transfere valor. Do ponto de vista das consequências: tendência a mais valores-de-uso, a menores valores (de troca, mediado pela monopolização) e principalmente menor mais-valor ou lucro. Revelou-se então uma contradição importantíssima: a relação valor-capital, essência-aparência, resolvida com mais contradição, com concentração/centralização de capitais, com mais tecnologia, com fragilização do valor-de-uso ou tempo útil das mercadorias (obsolescência programada), com desprendimento dos valores-de-uso do suporte e, ao mesmo tempo, tendência a reuni-los em um só; no subterrâneo: extração cada vez mais concentrada do trabalho não pago, o mais-valor.

            Voltemos ao exemplo do suco de laranja artificial. A preferência de um burguês por um valor-de-uso deslocado do suporte não tem origem subjetiva ou imaginativa mas sim no fato de que, de um lado, exige menor trabalho socialmente necessário (no caso: melhores condições para apropriar-se do valor total, baixar o valor-de-troca, vencer concorrência), e de outro, diminui sua dependência das variações conjunturais doutro setor, o agroindustrial. Pode inclusive mudar o sabor-cor-cheiro (valor-de-uso) do produto com poucos movimentos, em minutos. Percebemos um processo objetivo.

Do observado, formulamos: um único trabalho abstrato para múltiplos valores-de-uso. Em longo prazo, a contradição prejudica o essencial ou valor em favor do aparencial ou capital como consequência do duplo caráter positivo/negativo. Assim, a tendência à concentração e centralização de vários valores-de-uso apresenta-se como necessidade e afirmação do valor, embora desemborque em uma negação, qual seja, a inflação da aparência-capital coloca em crise a essência-valor. Nesse sentido, a monopolização contratendencia para contradição valor-de-troca elevado / valor em crise.

Sob a óptica dialética concreto-abstrato-concreto e concentração-centralização-central-orbitante; 1) no princípio da relação mercantil, o produto-mercadoria era simples e concentrado; 2) com o capitalismo amadurecido, surgiu cada vez mais novas, variadas e especializadas formas de mercadoria disponíveis, vendáveis; 3) fase imperialista, desenvolvimento e produção de mercadorias atinge o auge – intensiva e extensivamente – e, por isso, agora tende à fusão, fim da relação “alienada”, dos valores-de-uso e, por causa e consequência, da extração de valor. E qual será o resultado final deste processo? Ao destruir o comércio, o socialismo apresentará caminhos novos aos produtos; no momento, esta não é uma preocupação nossa.

Para irmos ao subcapítulo seguinte, comentaremos em velocidade outras duas tendências. Primeira: relativa fusão mercadoria-arte, mercadoria-estética, valor-de-uso como um valor também poético: dos tipos de carro aos tipos de lâmina de barbear, quem mais paga (valor-de-troca) possui acesso a um valor-de-uso mais belo (na relação concreto-abstrato, mais trabalho concreto exige mais tempo, ou seja, maior valor)[viii]. Segunda: o equivalente geral dinheiro caminha-se para a “moeda única”: cartão de crédito como suporte central e – expressão-do-valor/valor-de-uso! – bytes[ix].

Finalmente, voltamos à questão-bússola do capítulo:

A CRISE SISTÊMICA

Podemos enumerar quatro tipos principais de crises do capitalismo:
1.      As cíclicas, de superprodução;
2.      As orgânicas, de superprodução crônica, quando o capital encontra barreiras internas;
3.      As estruturais, quando os elementos que constituem e permitem o capital entram em crise (Estado, Valor, família monogâmica, ciência, natureza, etc.);
4.      As de época ou era[x], como dimensão maior das crises orgânica e estrutural.

Em um ponto de vista imensamente artificial – advertimos –, abstraindo fenômenos como a luta de classes ou a ciência; este modelo, centro de gravidade do capital, altera-se a cada um ou dois séculos, mais ou menos, com o fluxo temporal encurtado a cada deslocamento.

A dialética observa que o simples torna-se, superado, o complexo e este último tem dentro de si os elementos daquele, do simples. A crise orgânica é como a crise cíclica evoluída, complexa; e assim por diante. A atual crise mundial é ao mesmo tempo cíclica, orgânica, estrutural e – também e por isso – a última de uma era (capital financeiro/especulativo, centralidade bancária, capital-dinheiro), que esperamos encerrar-se em seu último ciclo.

Para concluir, como síntese-fim dos três ciclos confluídos, observamos:
1.      Essência capital-mercadoria. Foco da economia capitalista, o comércio expandiu-se extensiva e intensivamente por todo o mundo – alcançou o ápice;
2.      Essência capital-produtivo. A produção-capacidade produtiva – com o avanço técnico (especialmente, a automação e a robótica) e presença em todos os continentes junto a sua altíssima monopolização e oligopolização – tende à superprodução crônica mais crise do valor-trabalho (manual) – alcançou o ápice;
3.      Essência capital-dinheiro. O setor bancário inchou-se absurdamente, com domínio sobre a economia e impulsionando esta (incluindo por parte dos capitais fictícios e parasitários), sendo componente essencial da crise – alcançou, também, o ápice.

Convido-o, caso não o tenha feito, a ler as notas de fim do artigo.

João Paulo da Síria[xi]




[i] Podemos, por conclusão, retomar as avaliações:
1.         Do século XII, renascimento do comércio, até o século XVI houve a fase embrionária do valor-capital;
2.         A partir das navegações (século XVI), salto na relação comercial, o valor-capital adquire juventude;
3.         Com o século XVIII, primeira revolução industrial, o capitalismo amadurece, chega à fase adulta;
4.         Com o imperialismo, final do século XIX, começa sua velhice;
5.         Agora, agoniza cheio de medicamentos e aparelhos artificiais.
Cada alteração centralidade-orbitação estimula/guia o desenvolvimento dos outros dois aspectos da tríade-capital.
[ii] HAVEY, David (1992). Condição pós-moderna. São Paulo : Edições Loyola. (1.ed., 1989). Tradução de Carcanholo e nakatani para o artigo (1999) “O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização”.
[iii] Há algum tempo, avalio a possibilidade interpretativa seguinte: diferente do que se costuma observar, apesar das raízes linguísticas; a lógica formal, aristotélica, é uma relação duo, duplo-estática – embora o terceiro excluído – e em linha reta. O “Terceiro”, na verdade, apresenta-se como o segundo, o não igual, o outro, o não-é.
A lógica dialética materialista, marxista, por outro lado, apresenta uma relação triangular, tríade, onde dois elementos são centrais e outro não raro apresenta-se intermédio ou liga – embora a dualidade não estática exista (duplo caráter, por exemplo) –, em um movimento circular na totalidade e em espiral quanto à evolução. Para breve esboço: duplo-caráter interno, triangular nas inter-relações, circular nos movimentos de totalidade e espiral quanto à evolução dialética (saltos, saltos por ruptura, negação da negação, desigual e combinado, etc.).
Para abstrairmos, algumas inter-relações tríade dialética: a) infraestrutura, estrutura, superestrutura; b) ID, ego, superego; c) inconsciente, subconsciente, consciente; d) proletariado, setores médios, burguesia; e) acorde Dó formado por dó, mi, sol; f) indústria de matéria-prima, indústria de bens de produção, indústria de bens de consumo; g) prótons, elétrons, nêutrons; h) relação edipiana filho, mãe, pai; i) forças produtivas natureza, técnica, homem ou matéria-prima, maquinário, trabalhador; etc. – quando e se há, um quarto elemento ou o que destoa chamemos colateral.
Quanto à reta (formal) e ao circular (dialética); sobre o primeiro, na matemática grega, a menor distância entre um ponto e outro é uma reta; sobre o segundo, nos cálculos físicos de Einstein: no cosmos, a menor distância entre um ponto e outro é uma curva. Vale dizer; a dialética, além de negá-la, utiliza a lógica formal como ferramenta auxiliar.
[iv] Podemos considerar além. Toda a história humana e das sociedades de classes são a busca – por mediações e desigualdades – da concentração e centralização máxima de todos os aspectos da vida social, qual seja, o comunismo, cuja expressão desta lógica é a desalienação, integração (os termos dialéticos citados, concentração e centralização, podem causar alguma confusão subjetiva/conceitual ao serem associados erroneamente, neste caso, ao burocratismo ou ditaduras ou imperialismos). Rápida amostra: no primitivismo, o pajé ou líder ou ancião era a expressão frágil do poder; no escravismo, surge o Estado, que é superior à relação tribal – incluso territorialmente; depois, Idade média produz um novo Estado, absolutista ou feudal – melhor preparado, em geral, que seu antecessor; em sequência, o Estado burguês aparenta-se como grande evolução deste tipo de superestrutura; porém, o Estado operário, com sua própria democracia e economia estatal/coletiva/planejada/mundial – ou seja: maior concentração e centralização –, será o máximo exemplo; só superado pelo comunismo, onde o aparelho definhará e administrará somente as coisas, não os homens. Outro, na natureza: o Sol, daqui há alguns bilhões de anos, expandirá sua massa, engolindo os planetas e luas de seu sistema. Conclui-se: o máximo de algo é também a sua superação.
[v] O avanço tecnológico pode fazer surgir, por exemplo, algo como um “suporte maleável e universal”, multiuso, holográfico, que ora sirva como celular, ora como computador, ora como TV, ora como game, etc. Será uma solução ao capital na medida em que diminuirá sua dependência dos países atrasados e da matéria-prima, aumentará a concentração-centralização, relativizará a crise ambiental e permitirá maior controle do fluxo de dados e informações. Como fonte de energia auxiliar, sem abandonar as de origem fósseis, relativizando a inevitável crise do meio ambiente, talvez aprendam a processar, para combustão, algum elemento abundante no ar, como hidrogênio ou carbono. Estas tendências são uma lei: os valores de uso tendem a desprender-se do suporte (e/ou concentrar-se em apenas um), atrapalhando o valor e, ao mesmo tempo, ajudam a concentrar e centralizar capitais. Mais sobre, ver: “14 teses sobre a alienação hoje; uma hipótese perigosa” deste blog.
[vi] Na dialética, a essência gera a aparência, que é a manifestação daquela. Aparência é um fenômeno real, um “algo”; a essência determina e influencia o aparencial, que pode ser mais ou menos contraditório com o essencial. Porém, a aparência, como manifestação e algo em si, também influencia sua “fonte”, digamos dessa forma. Exemplo: se o valor de troca (aparência) de uma mercadoria, o preço, fica muito abaixo ou muito acima do seu valor (essência, medido pelo tempo de trabalho socialmente necessário para [re]produzir uma mercadoria) gera ou crise na economia ou, no segundo caso, inflação, sintoma de monopólios, etc. Dessa forma, as revoluções nos ex-Estados operários degenerados (após a restauração do capitalismo por ação dos dirigentes estatais), foram derrotadas (boa parte) pela “reação democrática”, pelo uso do voto; isso deu origem a uma situação reacionária mundial dentro de uma nova etapa revolucionária. No início dos anos 2000, com as guerras do Iraque e Afeganistão, crise de 2001, Torres Gêmeas, revoluções na América Latina, etc. entramos numa transição entre um situação não-revolucionária (fim da década de 1990) e uma pré-revolucionária.  Agora, a partir da crise mundial, de 2008, entramos numa situação pré-revolucionária mundial rumo a uma situação revolucionária ou contrarrevolucionária (possivelmente também mediada por uma transição).
[vii] Para esclarecer: a floresta amazônica (abstrato) é um conjunto de árvores que juntas, independente dos tipos específicos, produzem chuva no sudeste, biomassa, oxigênio, absorvem carbono e etc. Nesse sentido o abstrato, árvores em geral, é “algo”, algo real e importantíssimo. Individualmente, cada árvore produz frutos diferentes (concreto) e possuem características próprias que as diferem das outras e das de sua própria espécie (concreto). Vemos que na relação abstrato-concreto existe intimidade, sendo diferentes. O trabalho concreto produz valor-de-uso; o trabalho abstrato, valor.
[viii] Na produção, a flexibilidade e a microeletrônica facilitam – muito, como causa – este processo. O método “dedicado” de produzir, inflexível e rígido, ver-se em uma desvantagem relativa.
[ix] Pergunta ao leitor: os bancos centrais tendem, no futuro, a perder o monopólio da moeda? No momento, opino que sim. Nos próximos anos – caso não ocorra! –, pretendo apresentar um material estável e conclusivo sobre. No mais: Interessante que, ao contrário do papel-moeda, a expressão do valor – os dados computacionais – salta de suporte em suporte.
[x] Talvez, mais exato seja chamá-la crise-revolução.
[xi] Não encontrei esta observação, os centros de gravidade do capital, em outro trabalho teórico ou nos clássicos; porém, se algum dos leitores conhecer, peço que publique nos comentários link, fonte ou autor que, por acaso, já tenha desenvolvido estas teses; desde já, agradeço.