domingo, 15 de março de 2015

A ESQUERDA ANTI-PT PRECISA SER OUSADA E LOGO




A transição inciada em 2010 tornou-se uma situação pré-revolucionária. Os ataques aos poucos diretos vieram com tudo. O PT se desmoraliza, os burocratas sindicais perderam a paz. Os recentes escândalos de corrupção desacreditam (ainda mais) o regime e alimenta a desconfiança das massas. As disputas dentro do Estado, dos governos e parlamento é maior e mais instável. As greves e lutas continuam a se multiplicar. Na lembrança dos trabalhadores está a memória da poderosa jornadas de junho e as lutas dos últimos anos.

Toda esta crise gera oportunidade. A esquerda pode dar um salto. Mas é preciso correr e ousar pegar impulso. Os trabalhadores precisam ouvir suas dores representadas em ousadia, em iniciativa, em denúncias, em alternativas e uma terceira via. Ela suplica por isso. Quer ver uma saída, está insegura. Precisa dos sentimentos de esperança e força.

É preciso agitação agressiva de propostas socialistas. Colar cartazes pela cidade, pinchar, agitar, tornar públicas as propostas da esquerda. Sair da zona de conforto urgentemente.

Nesse ponto entram as questões das palavras de ordem. Os protestos da direita foram povoados por propostas reacionárias e contrarrevolucionárias - a classe média mais rica estava devidamente representada. Hoje por hoje, nas "classes baixas", a maioria desconfia, uma parte minoritária sente empatia. Mas se não houver uma alternativa, os trabalhadores quererão mudar com as únicas cartas que se lhes mostra a realidade. Ou ela acha seu próprio ponto de apoio, dos oprimidos, ou será dirigida, no desespero, na busca de uma saída, pelos seus próprios inimigos.

São quatro palavras de ordem políticas que a esquerda precisa levantar imediatamente:

- Fim de todos os privilégios políticos!
- Revogabilidade dos mandados a qualquer momento se os eleitores desejarem!
- Fim do financiamento privado de campanha eleitoral!
- Fim do voto obrigatório!

E:
- Dia nacional de luta contra a corrupção e por direitos!

Assim uniremos as lutas (e as pautas) econômicas e políticas, preparando uma futura greve geral ainda não aplicável. 

 Assim ganharemos simpatia e apoio.

Permitirá lutar ao mesmo tempo contra o governo e a oposição burguesa e será uma alternativa ao ainda precipitado Fora Dilma. Também combaterá, pela própria natureza classista das propostas, o modelo de (contra)reforma política defendido pelo governismo.

Ou a esquerda anti-PT faz isso ou, diante da crise, o oportunismo da direita vai procurar desviar a raiva para armadilhas.

Dizer que PT e PSDB são igualmente inimigos é verdade e deve ser dito. Mas a classe quer saída, quer solução, quer respirar e descansar seus nervos. Podemos transformar cansaço em revolta e revolta em luta de classes.

Os que vivem do salário não precisam ter como caminho apenas o PT ou o PSDB, o braço esquerdo ou direto do inimigo. Isso seria terrível. É preciso dar uma terceira avenida. Essa outra estrada deve aparecer, de cabeça erguida, firme, gritando, deve mostrar para onde ela leva, que é muito bem asfaltada e nela cabe toda classe trabalhadora e setores populares empobrecidos.

Uma frente única dos trabalhadores por direitos e contra a crise é urgente. PSOL, PSTU e PCB devem formá-la a partir de acordos mínimos e com as seguintes regras invioláveis: 

1. total liberdade de opinião, cada um poderá produzir seus próprios materiais;

2. nenhuma participação burguesa; 

3. nenhuma trégua ao PT ou à direita, que não devem, logicamente, participar da frente;

4. aos partidos da frente única deve ser garantido suas autonomias;

Precisamos de ousadia, ousadia e ousadia!

segunda-feira, 9 de março de 2015

Por que, afinal, a esquerda não usa a dialética? A Greve Geral.


No primeiro importante sinal de lutas, greve geral! Na primeira revolta parcial, revolução! Nas primeiras camadas reacionárias, onda conservadora! Na primeira importante dificuldade, crise geral! Nos primeiros sinais, todos os elementos! Só depois são feitos os balanços, as autocríticas, as acusações mútuas.
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Esperamos encontrar a revolução ou o medo já na outra esquina, empolgar-se é preciso. Avaliações vem e vão. 
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No entanto o questionamento é exatamente o mesmo do título deste artigo: e o método? Onde está a tal da dialética marxista? O materialismo dialético parece ser algo sobre o qual todos falam, mas, curiosamente, ninguém entende. Pode ser usada numa roda de debate, para travar o adversário com frases de efeito. No entanto, a questão das questões, a política, precisa de norte, de uma mão canhota.
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"Entre o preto e o branco exite o cinza". Vamos sob os feitos de exclamações: ou é não-revolucionária ou é pré-revolucionária (quem sabe tirar o pré!), ou é estabilidade ou é chamar a greve geral (que sabe insurrecional!), ou estabilidade do Estado ou Impedimento da Presidenta de plantão (quem sabe golpe!).
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E é assim, exatamente, onde a esquerda desconhece as transições, os fenômenos híbridos, os ritos de passagem, os processos pré-saltos. 
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Nada de 40,ou é 8 ou é 80!
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O cinza pode ser uma transição entre a situação não e a pré-revolucionária? Pode ser as greves unificadas, dias regionais de lutas, greves gerais por categoria como amadurecimento até uma futura greve geral ainda não aplicável? Pode ser estimular, com a luta, o desgaste do governo para amadurecer sua queda diante das massas? É claro (ou cinza) que sim!
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Lembro-me bem quando, entre 2010 e 2012,ouvi, na rotina, um fenômeno diferente, duplo, entre as pessoas comuns, não militantes. Ainda apoiavam o governo do PT, com muita firmeza, mas já tinham, diferente dos anos antecedentes, esta ou aquela importante crítica. Isso é importante: iniciou-se um desgaste, um período transitório que saltou, e muito, em 2013. 
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Os estágios transicionais são uma lei da matéria. Entre o aumento da inflação e o gatilho salarial há um caminho a percorrer: exigir um "simples" aumento de salário ou, quem sabe, um congelamento dos preços. Entre detestáveis demissões e a ocupação da fábrica sob controle operário com escala móvel de trabalho(!) pode haver um estado de preparação, de amadurecimento: lutar pela reintegração, contra a demissão ou, talvez, criar comitês de fábrica e exigir estabilidade. Aí está, em síntese, na agitação, a diferença entre uma política de extrema-esquerda e a de ultra-esquerda.

Na prática, tudo o que existe é uma transição, veio de uma causa e terá uma consequência. O socialismo é, sabemos, uma transição (fluida) entre o capitalismo maduro e o comunismo. Os próprios antigos estados operários eram uma transição entre o capitalismo e o socialismo (sendo este último, também, uma transição)... Do sim para o não, o sim-não.
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Ouvimos, entre os vermelhos, por estes dias, as vozes da greve geral. Isto é bom, e é decente. Mas qualquer anarquista, no alto de sua emoção e revolta juvenil, pode pensá-la.
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O marxismo exige ciência, exige método. Claro, erramos. Mas nunca se deve facilitar o caminho do erro. A responsabilidade é enorme. O improviso, o empirismo, o mecanicismo, o impressionismo e o sindicalismo não são de muita serventia enquanto totalidade.
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O marxismo antecipa as tendências futuras. E não só. Permite elaborar os próximos passos, puxar a corda para a nossa ponta.
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Greve geral? Por acaso, a CUT, a CTB e a Força Sindical dirigem, ainda, o grosso dos sindicatos e categorias? Sim, é óbvio. A - também ainda! - frágil esquerda consegue puxar por si uma verdadeira greve geral digna desse nome? Não, infelizmente. Conseguiria,ao menos, pressionar uma greve geral pela base forçando os burocratas a grevar em todo o país? Também não, mas pode - e deve! - preparar o caminho, o rumo, o norte. Tornar o impossível uma possibilidade, e a possibilidade em realidade.
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Então como? 1. Chamando greves unificadas nos estados; 2. unificando as que ocorrem paralelamente, 3 preparando greves gerais das categorias (correios, bancários, servidores estaduais, metalúrgicos do ABC, etc.), 4. puxando greves; 5. chamando dias de luta regionais (o país é continental, não dá para unir todo o território hoje); 6. elaborar frente únicas com organizações de esquerda contra os problemas da crise e contra o governo.
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Assim, com uma cor de cinza cada vez mais forte, podemos preparar as tensões para o salto-ruptura dialético, as condições básicas para uma greve geral, a primeira de outras. 
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Iremos, assim, aumentar a força na esquerda, crescer as rebeliões de base e oposições democráticas, aumentar a autoconfiança dos trabalhadores, educar para luta, consolidar organismos de combate por direitos.
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Chamar greve geral ou mesmo uma Luta Nacional, nos formatos propostos, desconsidera, no imediato, o desenvolvimento desigual e combinado, ou seja, desconsidera a realidade. É extremamente variável a maturidade e a forma da luta de classes de um estado para outro estado, de uma cidade para outra cidade, de uma categoria para outra categoria.
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Na hora em que a burocracia ver que ou se move ou perde o aparelho, que o mal-estar popular tem sentimento de revolta, ela se moverá. Sua movimentação será para trair na primeira oportunidade, para evitar maior crescimento dos revolucionários. Mas se moverá. E como dialéticos, devemos ter em conta, o caminho não é mecânico, são decisões humanas: pode, mesmo, ao contrário, não se mover, e, nesse caso, a desmoralização será enorme entre os oportunistas quando se enfrentarem com as revoltas dos assalariados.
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Quando as tão difíceis tarefas primeiras se tornarem realidade, as condições para exigir uma greve geral estarão dadas.
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Pode-se argumentar que a dialética dialoga com o "saltar das etapas". É fato. Não se trata apenas de evolução, mas de contradição, conflito, combinações, saltos, rupturas. Só que estamos no reino da materialidade (o único reino existente). A crise se aguça; a luta de classes acelera-se desde 2013; uma parte dos "brasileiros" se esquerdiza (trabalhadores e classe média) e outra caminha para a direita (pequena-burguesia); quase todas as superestruturas, em medida maior ou menor, sofrem rachaduras internas. Passo a passo, estamos caminhando para a beira do abismo, porém, não chegamos ainda nessa beira ou mesmo em um abismo.
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Artigos acadêmicos, cansativos, sobre dialética temos e muito. Compreendê-la, usá-la é uma outra orientação. Querer dominar o marxismo e o materialismo histórico sem o uso do materialismo dialético como ferramenta, para além dos debates, é tão inútil quanto perigoso. Todo quadro desleixado com os estudos deve ser visto como um irresponsável.
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A experiência partidária/sindical empurra a militância para uma realidade paralela, alienada da rotina geral, orientada para o clubismo, para diálogos típicos de tribos (marxistas). É preciso misturar-se com a vida dos trabalhadores, negar o carinho pelo elemento químico puro. No chão do mundo a vida é contraditória, a matéria é totalmente suja.

ATUALIZAÇÃO (17/03/2015):
A proposta de greve geral tem por um lado,a influência do economicismo (sindicalismo) e, por outro, uma tentativa de mostrar garra e firmeza e radicalidade.
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É possível - e até urgente! - unir as pautas econômicas e políticas para conseguir mover a classe trabalhadora. 
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São quatro palavras de ordem políticas que a esquerda precisa levantar imediatamente:

- Fim de todos os privilégios políticos!
- Revogabilidade dos mandados a qualquer momento se os eleitores desejarem!
- Fim do financiamento privado de campanha eleitoral!
- Fim do voto obrigatório!

E:
- Dia nacional de luta contra a corrupção e por direitos!
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Ou seja, em síntese: regatar o papel das jornadas de junho. Um dia nacional pode ser antecipado com regionais. Mas antes de tudo é preciso agitação, panfletagem, divulgação, colar cartazes pela cidade, conversar, dialogar. Enfim: ganhar a classe para as propostas. Puxar um "Dia" desde um ponto de vista superestrutural, sem trabalho prévio, de base, de nada servirá. 
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Não é hora para atos de vanguarda. Necessitamos incidir pesado e diretamente (e há a oportunidade) sobre a consciência das massas. Assim não seremos algumas dezenas ou centenas nas ruas, mas dezenas e centenas de milhares.
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J. P. da Síria

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A (atual) reorganização dos blocos de rua e o lucro



Ano passado, fevereiro, em 2 carros, eu e uns amigos rodamos pela cidade numa busca bêbada por locais onde pular o carnaval. Valeria a pena. Há cada vez mais espaços. No entanto, em um deles, vimos uma tristeza anti-carnavalesca: não era mais um evento de entrada gratuita (15 reais por pessoa!).

É desnecessário que eu diga “o carnaval foi mercantilizado e elitizado”? A Ala dos Cotonetes (patrocinado pela Johnson &  Johnson) no desfile da Tom Maior de São Paulo (2010) é um caso tão bizarro quanto simbólico. Ou mais bizarro que simbólico.

Imagine um monte de fantasias de cotonetes – isso mesmo – em um carro alegórico (quase)pulando... (quase)pulando... O pior mesmo: os abadás caros pra c*cete, a exclusão dos “pipocas”, as entradas previamente pagas, é caríssimo ver sua escola de samba (um preço, literalmente, para inglês ver!).

Mas carnaval sem festa  e bacanais seria um pecado de morte. Então o povo sempre dá seu jeito. O dinheiro tem que sobrar pra bebida, comida e outras coisitas más, não é?

É assim – exatamente assim! – que o carnaval volta para as ruas!

Há um verdadeiro processo de reorganização do carnaval. Dinheiro não cai do céu, macho... Os blocos de rua voltam com tudo nos bairros, no centro, entre os vizinhos. É uma novidade já plenamente iniciada e em crescimento.

Pague sua cerveja, sua caipirinha e seu arrumadinho. Chega mais. O resto é entrar de graça, 0800.

Na legítima festa da carne podemos nos fantasiar como queremos, podemos circular na avenida; somos atores e atrizes ativos, não ficamos na arquibancada vendo a festa passar (somos a própria festa!). Podemos integrar, agregar, esquecer. É a hora da coletividade desorganizada! A anarquia festiva! Marx tinha razão:

Contra os absurdos do capitalismo, viva e viva o carnaval de rua!

FONTES (para os mais formais):
1.       Vá para a rua e VEJA (não me refiro àquela revista);

3.       http://www1.folha.uol.com.br/turismo/2015/01/1581683-carnaval-de-rua-cresce-no-pais-veja-selecao-de-33-blocos-em-cinco-estados.shtml

Fonte da foto:
http://www.meliuz.com.br/blog/5-dicas-carnaval-de-rua-2014/

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O “Mais Médicos” e o que faltou na esquerda




 Esse tema, ainda polêmico, dividiu – e ainda divide – a esquerda. Basicamente, entre os defensores (a maioria do PSOL, o governismo e o PCB) e críticos (PSTU centralmente). Vamos aqui, o mais brevemente possível, levantar uma terceira avaliação/posição.

Como definir (e isso é central) se uma política “em si” é progressiva? 
A resposta mais simples e, por isso, parcialmente errada, é se leva melhorias aos trabalhadores.

Daí arranjamos 2 problemas:
O governo é progressivo em sua totalidade? Sim ou não?
Os assalariados são de vários tipos, categorias e setores. A classe trabalhadora é heterogênea. Qual classe social e qual setor de classe se beneficia?

Método
Esse artigo se localiza na oposição de esquerda ao governo do PT/DILMA. Caracteriza-o como uma governo de frente popular, oportunista e à serviço dos ricos contra os trabalhadores. Devemos, portanto, jugar o governo pela sua totalidade.

Mas, mesmo o mais fascista dos governos pode promover reformas. E, logicamente, chamamos algo pelo nome. A “cartilha” marxiana reza: sempre que um governo inimigo promover uma reforma, dizemos que é boa, mas não o bastante e dizemos/exigimos mais.

E aqui voltamos à questão central: o “Mais Médico” é reforma ou, ao contrário, uma contrarreforma?

Para os médicos nacionais é, de fato, contrarreforma, tira-lhes vagas e tende a reduzir o salário. Aos trabalhadores precarizados das pequenas cidades, por motivos óbvios, é uma reforma. Aos médicos cubanos, idem (salário, emprego e alguma limitada liberdade política).

O que vemos é a contradição, uma disputa interna entre os assalariados. Esses conflitos internos ocorrem em todas as classes sociais e entre as classes oprimidas. Naturalmente, como comunistas, ficamos do lado dos menos privilegiado nessa relação. Os médicos brasileiros são, visivelmente, uma aristocracia entre os assalariados de classe média.

Dessa relação percebemos os erros nas esquerdas:

A estalinista/governista faz uma defesa acrítica seja por subordinação ao governo seja por intolerância a qualquer denuncia contra a ditadura cubana. É, pois, uma posição oportunista e parcialmente correta.

Algumas correntes trotyskitas e o PSTU erram ao supor uma ligação mecânica entre “governo das contrarreformas” e essa atitude específica na saúde.

Ambos os casos representam uma posição não operária e uma  certa influência (não necessariamente negativa) dos servidores públicos entre os quadros.


“Exigir além disso” e as Jornadas de Junho
Esse método (exigir sempre mais reformas) supõe que digamos: 
1.  “Não basta o Mais Médicos é preciso mais verbas para o SUS Já”; 
2. “Direitos aos médicos cubanos e salário igual à média de um brasileiro na mesma profissão”. 
De uma reforma, sem defender o governo, exigimos outra(s) reforma(s).

Esse programa federal ajudou a consolidar a reeleição de Dilma. Os votos nas pequenas cidades e no interior foram vitais ao petismo. Mas a razão de fundo é a mobilização popular, foi uma reforma, uma reação do governo do PT à pressão juvenil de Junho de 2013.

Aquela luta nacional obteve várias vitórias colaterais (a mais curiosa, provavelmente, é o enfraquecimento da família Sarney).

Essas contradições promovem erros por necessitarem respostas aceleradas para agir na realidade. Ao que parece, essas reformas (entre contrarreformas) podem retornar, especialmente, enquanto durar essa transição entre uma situação não-revolucionária e pré-revolucionária no Brasil. Transição esta que parece estar chegando ao fim, tirando a margem de manobra governista.


PS: esse artigo breve também sintetiza observações de outros companheiros, todos do PSTU, com quem conversei sobre o tema quando do lançamento. Como se sabe o partido adota o centralismo publicamente. Longe de ser crítica, é um reconhecimento informal da contribuição coletiva.


João Paulo da Síria.

domingo, 21 de dezembro de 2014

O QUE É - E COMO AGE - O CENTRISMO?

ATUALIZAÇÃO: quando escrito, ainda militante do PSTU, percebi a tendência à cristalização deste partido como um centrismo burocrático ultraesquerdista. Infelizmente, esta tese se confirmou; o texto pretendia ser uma ajuda indireta contra este caminho. De qualquer modo, necessitante de uma revisão textual, o artigo segue útil do ponte de vista teórico-prático ou pelo menos assim espero.

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No movimento alguns  ativistas dizem que “é preciso unir a esquerda”, “por que estamos divididos?”, “se PSTU, PSOL e PCB querem o socialismo, qual a diferença?”. Sempre que for necessário e possível, devemos buscar a união da esquerda numa luta, numa frente eleitoral e sindical, num confronto contra fascistas, etc. Pra nós, no entanto, unir a esquerda não é princípio: está subordinada às necessidades da classe trabalhadora para alcançar a vitória, o socialismo. Isso se dá porque existem esquerdas, no plural. A esquerda reformista (eleitoral e sindical) e a revolucionária são as mais comuns. Esses conceitos são claros, mas podemos nos observar ouvindo militantes dizendo: “aquela organização é centrista”, “o camarada está centrizando” (uma gíria militante), “centrismo atua dessa forma recuada mesmo”, etc. Aos companheiros mais novos, normalmente, fica a paciência de dominar esse conceito. Por isso, longe de esgotar o tema, faremos um breve debate sobre ele e como se manifesta no cotidiano.



Reformismo numa época revolucionária

O reformismo clássico da esquerda (e também o centreismo) é fruto da época progressiva do capitalismo. O desenvolvimento contínuo do capitalismo permitia aos trabalhadores, com muita luta, arrancarem inúmeras conquistas, algumas delas: o direito ao voto, a ter sindicatos reconhecidos, 8 horas de trabalho, educação infantil, melhores salários, etc. A burguesia tinha condições de dar várias concessões aos trabalhadores, ao ponto de haver algum adestramento,um instinto reformista. Mas veio o imperialismo, grandes empresas monopolistas e com elas a primeira e a segunda guerras mundiais. O capitalismo entra numa nova fase: a de decadência. O desenvolvimento da tecnologia chega ao ponto de criar uma sub-classe de desempregados; a guerra por lucro é uma constante (Iraque, Afeganistão, etc.); as crises econômicas são maiores e mais internacionalizadas; as grandes dívidas internas e externas impedem que haja novos direitos para a classe trabalhadora, é mais comum a radicalização da classe operária (se populariza, no princípio do século XX, um novo método: a ocupação de fábrica), a classe média inclina-se mais comumente para a esquerda. Não bastasse, surge a revolução russa e inúmeras revoluções (como na Líbia, Egito e Síria) que dão a ideia da “possibilidade”. Fica a pergunta: como a esquerda reformista pode ser reformista numa sociedade aonde não se pode consolidar reformas? Como ser reformista numa época de revoluções? Assim surge o centrismo.

Centrismo, resumidamente, são organizações reformistas que adotam, por necessidade e/ou pela radicalização das classes médias, alguns elementos dos revolucionários, mas nunca de forma consequente.

Como a realidade é mais conflituosa, a classe trabalhadora e a sua vanguarda são mais à esquerda (este dois elementos, em cada conjuntura, se desenvolvem de forma desigual, é claro), puxam as organizações, incluso, as deliberadamente oportunistas (ou inexperientes e frágeis), para este caminho, mas de forma limitada por seu caráter social.

O centrismo não tem nervos parar ser marginal ou minoritário. Tem dificuldade de conviver sem reconhecimento. Boa parte de suas ações, como veremos, busca uma forma de se acomodar ao meio. Defender abertamente uma postura que cause rejeição (como criticar continuamente um governo que tenha apoio geral), por mais justa e necessária que seja à luta, não é sua prática no trabalho de base.

Mas isso só não basta para explicar o fenômeno. Os partidos com estas tendências políticas têm algumas características sociais que lhes são próprias. Uma delas, bastante comum, é que, pela forma como atuam, nenhuma das classes sociais que constroem a sua organização exerce uma liderança estável, além de que a classe operária não é a base social e política dominante no seio dessas organizações (na direção, programaticamente e/ou numericamente). A classe média moderna (incluindo a burocracia sindical de esquerda), a pequena-burguesia radicalizada, intelectuais, etc. exercem uma força importante nestas organizações e, especialmente, nos seus organismos de direção. Isso, a base social extremamente heterogênea, explica, em boa parte, porque uma hora suas políticas são mais reformistas (ou até de direita) ou revolucionárias (ou mesmo ultra-esquerdistas).


Falemos de dois tipos de centrismo de esquerda:

1. A oportunista, burocrática ou regressiva: são partidos de esquerda, com direções burocráticas, cuja função de seus dirigentes não é a revolução socialista, mas parasitar nos sindicatos e no parlamento. Adotam, para isso, algumas características do bolchevismo, políticas mais radicais, mas para enganar melhor a classe trabalhadora e seus militantes. Por isso, as lideranças centristas podem elogiar-se como “socialistas” ao mesmo tempo em que recebem dinheiro de empresas em sua campanha eleitoral. Podem defender o fim do Estado de Israel enquanto vivem de privilégios sindicais. Podem num ponto político serem progressivos e reacionários em outra matéria política, de acordo com aquilo que lhe acomoda politicamente;

2. A honesta, progressiva: adota algumas características do bolchevismo, oscila, por inexperiência geral e outros problemas que debateremos, de posições reformistas e de direita até revolucionárias e ultra-esquerdista – como a sua versão oportunista. Sua inexperiência, falta de educação revolucionária teórica e prática, sua suscetibilidade a pressões e impressionismos, etc. leva-os a cometer inúmeros erros. Caso não sejam ganhos para o projeto da revolução, tendem a tornar-se centrismo oportunista.


Pela combinação desses dois fatores, é comum acontecer de a direção desses partidos serem centristas oportunistas e boa parte da base ser a versão honesta, mas profundamente ligadas à sua direção. É uma importante contradição. O maior exemplo no Brasil é o PSOL (especialmente a sua ala esquerda) – cuja direção é formada pela burocracia sindical de esquerda e parlamentares que vivem bem com o salário advindo do Estado.

Outro elemento importantíssimo é a de ter uma certa fragilidade maior a pressões sociais. Como não possuem base social estável, a classe operária não exerce uma liderança sólida, tem uma relação débil com a teoria, sem um programa claro, etc. Sua política varia constantemente sob pressão. Iremos dar exemplos, mais adiante, mostrando que, por estas características, o centrismo raramente é principista e dificilmente chegam a ter influência majoritária de massas.

Vale fazer três esclarecimentos: a) uma tática não revela em si a natureza de uma organização: um partido revolucionário pode e deve propor reformas - um partido reformista ou centrista pode, em determinados momentos, elaborar políticas mais radicais; b) o que define a natureza de uma organização é a sua estratégia, o caráter de sua direção, a relação com um programa e a base social que a compõe e representa; c) reformismo e centrismo são irmãos diferentes: o centrismo soma, instável, elementos reformistas e bolcheviques. 

Este artigo não focará em abstrações teóricas, daremos exemplos do cotidiano militante dos partidos centristas. Acreditamos ser mais educativo assim. No mais, ao final elencaremos textos marxistas sobre o tema que tratará de vários aspectos do assunto.


Supervalorização da oratória, da liderança e da figura pública


Nos partidos centristas a liderança tem um valor especial pela oratória. Qual a essência disso? Para ter cargos parlamentares e sindicais é importantíssimo ter ótimos oradores, líderes infalíveis. Priorizar como “liderança” os melhores organizadores, aqueles que sabem organizar politicamente as finanças, os melhores teóricos, os melhores em “vender jornal e fazer propaganda”, os melhores em captação de militantes, os mais talentosos organizadores é coisa de...  bolchevique. Como o objetivo é o tático e não o estratégico, o orador é valorizado e normalmente possuem muito talento. Vive-se uma relação de admiração forte pelo candidato, figura pública, transforma-o numa espécie de herói, um socialista pop.

Daí vem hábitos de propor, por exemplo, “fóruns de debate permanente do movimento”, a prioridade dada às CPI’s. Para um comunista interessa um fórum quando este organismo faz avançar a luta. É este o critério. Por outro, o centrismo (especialmente as lideranças) puxa polêmicas encarniçadas apenas se lhes couber um audiência positiva ou se precisa defender métodos que mantêm seus privilégios; do contrário, evitam. É claro que uma organização revolucionária precisa de bons oradores, são importantes, mas não são o que envolve o partido. Entre centristas podemos ouvir conversas do tipo: “Aquele camarada é um bom organizador de finanças, mas aquele outro é um quadro, uma liderança nata, você tem que ver ele na assembleia discursando”, ou: “o camarada fala bem, viu, domina a política, sabe convencer, esse aí vai pra direção da organização, com certeza”.

Balanço sempre positivo


Os comunistas procuram falar a verdade para a vanguarda, as massas e a si mesmos. Educa e se auto-educa dessa forma. Quando erra, diz que erra; quando acerta, diz em que acerta. Separa o que é vitória e derrota. Corrige, muda, adequa, aprende com os erros. É muito comum o centrismo fazer diferente. É verdade que é direto e sem rodeio em muitas situações – especialmente para fazer balanço de outras organizações -, mas procura "evitar crises" chegando em suas reuniões dizendo que “o balanço foi positivo”, “apesar dos erros, o balanço foi positivo” quando boa parte ou tudo deu errado na tarefa em que se propôs. É a negação do conflito. Por que motivo estragar o clima de que é a esquerda que vale a pena? Mais incomum é um militante falar de seus próprios erros, uma prática que deve ser rotineira. As lideranças, normalmente, são protegidos e ainda mais protegidos quando cometem erros graves, não fazem autocríticas, não vivem a mesma disciplina e regras da base, etc. ela é, por demais, importante.


A busca do consenso

Comecemos direto ao ponto: o consenso é, em si, uma prática ruim? Sim e não. Depende do momento. É consenso naquilo onde pode haver acordo; no que não há, deve-se votar e resolver democraticamente.

Tanto a classe média, a pequena burguesia e a burocracia de esquerda estão adaptados ou tentando criar uma vida não conflituosa economicamente e psicologicamente. São hábitos diferentes da classe trabalhadora e não gostam quando isso é desfeito ou ameaçado. Estes setores, enquanto classe, procuraram viver uma vida burguesa com uma renda e possibilidades bem menores que a burguesia. Isto, comum na base social muito presente no centrismo, leva a hábitos políticos.

Os socialistas propõem aos movimentos e a sua classe as políticas que observou, cuidadosamente, serem as melhores pois aproximam os trabalhadores da vitória. Se uma corrente propõe uma política de consenso entre os grupos políticos que é negativa para a vitória, então não pode haver acordo. E defendemos nossa política mesmo sendo minoria. É muito comum o centrismo buscar consenso quando vê que será minoritária: com medo da marginalização e da tensão, corre para criar uma falsa maioria, abre mão de sua política. É preciso, ao contrário, amargar, ser minoritário, deixar a classe fazer suas experiências com suas decisões erradas e com todos os partidos e saber com quem contar quando precisar mudar suas decisões.



Capitular à consciência das massas


Nos debates com o centrismo frases como “a proposta não dá porque a consciência das massas é atrasada”, “não vão entender nossa proposta”, “é muito radical pro nível de consciência”, “o governo tem apoio, não vamos criticar diretamente”. Ou seja: o mais importante é não perder a influência, não ser minoria, etc. Os comunistas devem se importar muito com o nível de consciência dos trabalhadores. Na verdade, podemos dizer que a razão de construirmos partidos de combate é pra disputar suas consciências através da experiência, é nossa razão de existir. Agitamos, se necessário, uma proposta política até que os trabalhadores se cansem de ouvir. Elaboramos propostas para que a consciência do povo trabalhador se desenvolva e dê saltos progressivos. Mas a consciência é o relativo na hora da avaliar cientificamente qual a política a se adotar. O absoluto são as condições materiais. Ou seja: o que determina a política que adotaremos são os fatores objetivos (situação econômica, situação das classes sociais, situação do Estado e dos diferentes tipos de organizações, etc.) e não apenas um - importante - elemento subjetivo (no caso: o nível de consciência). Vale lembrar que a cultura, hábitos, educação, a consciência etc. são partes vitais da análise marxista para elaborar uma política. Se estamos numa ditadura fascista, com crescimento econômico e sem lutas temos um tipo de política; se estamos numa situação pré-revolucionária, numa democracia burguesa, com greves gerais e fechamento de fábricas, temos outra política. Levando o último caso: mesmo numa situação pré-revolucionária a consciência das massa pode estar atrasada. Podemos, neste caso, adaptar a linguagem das nossas propostas - e como divulgá-las - e escolher qual delas são as mais adequadas pro nível de consciência. Mas, via de regra, não recuamos na política, mesmo quando ficamos minoritários conjunturalmente. O motivo é que algumas propostas que os trabalhadores aceitam (por ter a consciência atrasada) tendem levá-los a derrotas sérias. Eles não chegam naturalmente à necessidade de que devem governar: temos que convencê-los a partir de sua experiência com a realidade e conosco.

No dia a dia é muito comum chapas para DCE’s organizadas pela esquerda fazendo campanhas em defesa do “apartidarismo” nas salas de aula quando pedem votos. Raciocinam: “a juventude é apartidária, a outra chapa tem PSTU e outros grupos. Vamos pedir votos para nossa chapa dizendo que a outra chapa é partidária”. Temos clareza apartidarismo é uma ideologia burguesa para a classe trabalhadora, ensina aos escravos assalariados que eles não devem ter sua própria política e seu próprio partido. Mas, os centristas, não priorizam a disputa da consciência das massas e, assim, aliar uma ação tática – eleição – a um objetivo estratégico – socialismo –, mas: ganhar o aparato, o DCE. Acaba que o militante do PSTU, que não se esconde, tem que explicar aos estudantes que tem partido na chapa e que a chapa que se disse “apartidária” é organizada - veja só - por outro partido... Perdemos, numa situação dessas, muitos votos, mas não rompemos com o princípio. Da mesma forma o PSTU faz uma campanha pesada, mesmo tendo poucas forças, contra as tropas brasileiras no Haiti mesmo sendo uma posição marginal no país. Os centristas se negam a falar, não dão hierarquia ou apenas apoiam verbalmente o caso daquele país.


Capitular aos erros da vanguarda


Tanto os revolucionários como os centristas querem captar lutadores, a vanguarda. Aqui se apresenta as diferenças no método. Dizemos abertamente, evitando o sectarismo, quando a vanguarda de conjunto - e um lutador em particular - está, para nós, cometendo algum erro. Fazemos isso porque não queremos que este setor vá para a derrota, para um beco sem saída, porque nos importamos com seus rumos, pois os lutadores mais abnegados podem muito com uma política e com métodos corretos. O centrismo, via de regra, é mais diplomático e negociador. É comum dizer que apoia métodos, políticas e erros dos ativistas mesmo sendo nocivos para a vitória. A intenção é ganha simpatia, amizade e facilitar o diálogo.

Como a moda não é o poder operário, bolchevismo, a esquerda centrista defende a “radicalização da democracia”, “democracia real”, “horizontalismo”. Ou seja: abrem mão da estratégia já que a nova vanguarda não é socialista, é vagamente de esquerda e tem por preocupação a corrupção. Capitulam, hoje, aos Black Block (e – ufa! – como bom é não estar nesta boca de sinuca que está agora os sectários do PSTU!). Adotam a moda militante da época, não tencionam (é verdade que dá muito trabalho). Agora, por exemplo, que o apoio aos "BBs" pode gerar rejeição eleitoral a Marcelo Freio no Rio de Janeiro, o PSOL muda a política (e participa da escandalosa CPI do vandalismo).



A rejeição à teoria


A valorização da prática absoluta, da ideia tática rápida, do improviso, do experimento, das análises rasteiras. A desvalorização, na outra ponta, da teoria e do estudo. Por esse hábito acaba-se, artesanalmente, por ser mecanicista, empirista ou formal na elaboração política. Fala-se que “prefiro mil vezes a prática que a teoria”, “aquele partido fica usando textos que não valem mais”, “são bons na teoria, mas na prática...”, “ se prendem à teoria, métodos velhos e não veem o novo”, etc. Há no centrismo a rejeição à teoria ou mesmo desprezo; em alguns caso, se tem teoria mas é uma relação à parte e exótica da militância, sem relação com a prática ou necessidade de elaborar política cientificamente. neste caso,a função da teoria é oral, teatral, literária e de debate.

Para Lênin a formação teórica servia para preparar, pacientemente, homens e mulheres mais capazes que a burguesia e seus servos. Só assim poderemos derrotar o inimigo.


Dois erros centristas do PSTU


Os revolucionários erram e errarão. Sem autoproclamação, para fins educativos, vamos a alguns exemplos.

Quando do processo de surgimento do PT, nosso partido, inexperiente e ousado - chamava-se Convergência Socialista -, concluiu que o grupo ligado a Lula era um centrismo honesto, logo era necessário disputar seu grupo pra revolução brasileira. Lula liderava várias greves fortes, dizia que trabalhador defende trabalhador e patrão defende patrão, que a diferença dele e dos líderes eleitorais era uma diferença de classe, que o PT era a ferramenta política dos trabalhadores... Era um político esperto: percebeu que a situação brasileira era pré-revolucionária (havia ocupações de fábricas, as greves se multiplicavam a cada mês, etc.) e decidiu alinhar seus discursos e algumas ações mais à esquerda para ganhar seu espaço eleitoral. Graças à LIT – Liga Internacional dos Trabalhadores (devemos tudo à Internacional!) a Convergência pôde ver seus erros e corrigi-los. A maioria das correntes do PT tinham a mesma análise errada: hoje são pequenas, ou degeneradas, ou desapareceram. Quanto à convergência: foi expulsa do PT, pois a direção lulista determinou a proibição de lançarmos a campanha “Fora Collor”. Logicamente, nosso compromisso era com a classe operária, não com a burocracia petista.

Outro erro importante aconteceu nas eleições para presidente em 1998. No processo eleitoral, o PSTU fez uma grande campanha contra FHC e as privatizações. Foi um trabalho muito importante. Mas a LIT mostrou que erramos ao não enfrentar o PT como enfrentamos o FHC no campo eleitoral. Lula era mais nocivo que Fernando Henrique Cardoso porque despertava ilusões profundas na classe trabalhadora e deveria ser combatido. Foi um desvio centrista que corrigimos devidamente nas eleições de 2002.

Inúmeros elementos pressionaram estes erros centristas que cometeu o PSTU. A inexperiência e a radicalização (oportunista) da direção majoritária do PT, no primeiro caso; a pesada influência de massas no campo de esquerda e de vanguarda do PT, por exemplo, nos dois casos. Estes exemplos nem de longe explicam a totalidade da razão dos erros, mas servem de exemplos dos elementos que pressionam fortemente desvios até mesmo em organizações revolucionárias.


A relação com o centrismo


Ao centrismo honesto procuramos a unidade e sempre deixamos claro nossas posições. O objetivo é ter tanta unidade quanto os pontos em comum permitirem. queremos a base e a direção. Na Espanha o partido da LIT (PRT) fez parte de um partido centrista honesto chamado Corriente Roja. Militamos juntos, debatemos, polemizamos com a base e a direção. Fizemos um trabalho de tentar ganhá-los ao projeto do comunismo. Hoje Corriente Roja é a LIT naquele país. Adotaram o programa e a forma organizativa de nossa internacional.

Ao centrismo oportunista dizemos à sua base e à sua direção qual política achamos melhor para a classe trabalhadora e propomos que eles também a assumam. É uma relação diferente em comparação ao centrismo honesto (e há uma certa medição de forças). Se aceitam, a luta se fortalece; se não, que se desmoralizem. Evitando o sectarismo, fazemos unidade sempre que for bom para nossa classe. Ao mesmo tempo,  não abrimos mão de um projeto e proposta (não consensual) em nome da unidade, que é algo tático. O debate é sempre aberto. Dizemos à sua base, com a devida paciência, o que significa a direção de seus partidos.

A unidade é algo tático, não principista. Devemos ser os primeiro a propor unidade quando necessária e os primeiros a romper quando há traição. Podemos sintetizar alguns critérios sobre unidade: 1. Trará vitórias e fortalecerá a luta pela consciência das massas? Sim ou não? 2. Fortalecerá o nível de organização sindical e/ou político das massas e da vanguarda? 3. Aproximará a tática da estratégia ou temos condições amplas de levar esta tarefa sozinhos? 4. Há algo que realmente pressione objetivamente a necessidade de uma unidade imediata que faz possível o centrismo (sob pressãodo fetor subjetivo, o partido), mesmos que a sua direção não queira, ceder a esta pressão? 5. Nos garantirá autonomia de ação, organização e de opinião?


Uma reflexão e convite

Precisamos de partidos cujas as suas lideranças e  dirigentes darão a vida pela revolução brasileira; que se neguem a ficar encastelados nos sindicatos, parlamento, na rotina sindical; Abram mão do sucesso e dos privilégios para arriscar a vida em enfrentamentos num processo revolucionário (uma revolução infelizmente não é algo bonito e romântico). Que partido nos prepara pra isso? Que partido representa melhor este projeto?


Pequena nota: não citei quais as correntes por uma questão didática: não são poucas as correntes políticas que tem estas práticas, muitas adotam o mesmo desvio de organizações adversárias. Boa parte delas consolidaram seu perfil centrista na década de 90, uma época difícil para a esquerda mundial (ver material do PSTU e da LIT sobre o “Vendaval Oportunista”).



Por: João paulo da Síria. Teresina/Piauí. 
OBS: na época era militante do PSTU. Esse texto está reduzido e optei por manter a referência à organização por ser simpatizante e pra manter a coerência textual.

Indicações de leitura:
O que é centrismo (Trotsky):
http://www.marxists.org/portugues/trotsky/1930/05/28.htm
Programa de Transição: Contra o oportunismo e o revisionismo sem princípios (Trotsky):
http://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap02.htm#18
Em espanhol: O Centrismo e a Quarta Internacional (Trotsky):
http://www.marxists.org/espanol/trotsky/ceip/escritos/libro3/T05V211.htm
Em espanhol: Uma vez mais sobre o centrismo (Trotsky):
http://www.marxists.org/espanol/trotsky/ceip/escritos/libro3/T05V216.htm
Em espanhol: Sectarismo, centrismo e a Quarta Internacional:
http://www.marxists.org/espanol/trotsky/ceip/escritos/libro4/T07V131.htm
Kautsky e as origens históricas do centrismo na esquerda (Valério Arcary):
http://www.revistaoutubro.com.br/edicoes/07/out7_07.pdf
Princípios, estratégia e tática na política revolucionária (Henrique Canary):
http://www.pstu.org.br/conteudo/princ%C3%ADpios-estrat%C3%A9gia-e-t
Trotsky e a Itália de 1920 (Francesco Ricci):
http://www.litci.org/pt/index.php?option=com_content&view=article&id=2077%3Atrostky-e-a-italia-de-1920