quinta-feira, 21 de abril de 2016

FIM DO CAPITALISMO: TRÊS CAPITAIS, TRÊS ERAS, TRÊS CICLOS

FIM DO CAPITALISMO: TRÊS CAPITAIS, TRÊS ERAS, TRÊS CICLOS

Neste blog, tenho colocado as primeiras versões-betas de um futuro livro, “Marxismo e Capitalismo Hoje – a Revolução Permanente no século XXI”. Diante da crise e do tempo até a conclusão do projeto, disponho as versões iniciais; a seguir, um dos debates introdutórios.

FIM DO CAPITALISMO: DIALÉTICA DO VALOR-CAPITAL



O tema sobre limites históricos do sistema mercantil é alvo de inúmeros debates e polêmicas; vamos, a partir de outras contribuições e tentando superá-las, adentrar na questão, na sua dinâmica. Para isso, convido ao leitor a observarmos três elementos do capital e do capitalismo:

1.      Capital bancário, comércio de dinheiro ou portador de juros;
2.      Capital produtivo;
3.      Capital comercial.

Ou, em real e em essência:

1.      Capital-dinheiro;
2.      Capital-produtivo;
3.      Capital-mercadoria.

Os três objetos acima apontados serão nossos guias; adentraremos na história da humanidade, do capitalismo e do capital. Para anteciparmos, será a seguinte a pergunta deste artigo: como os capitais organizam-se, interagem, rumo à própria destruição, para o desenvolvimento da totalidade econômica? Observaremos, portanto, o amadurecimento do corpo vivo; vejamos:

a)      Fase I. Com as navegações, século XVI, iniciamos o comércio mundial. Neste momento, a produção e o setor bancário são secundários, frágeis, orbitantes; seus próprios desenvolvimentos seguem o lastro direto da compra-venda;
b)      Fase II. Com a máquina a vapor, século XVIII, desloca-se o centro de gravidade do capital: a produção revoluciona-se, primeira revolução industrial. Surge então, da união nova capitais bancário-produtivo-comercial, o chamado capital industrial. Os próprios setores de comércio e de juros evoluem ao surgir a tendência, impulsionada pela centralidade produtiva, à mercantilização total do mundo e, pela primeira vez na história humana, à superprodução;
c)      Fase III. Com a crise orgânica no final do século XIX (por excesso de capital produtivo nos países centrais e mundialização da relação mercantil), a eletricidade e as renovações técnicas; a relação central-orbitante altera-se novamente: o setor bancário ou essência capital-dinheiro adquire força necessária para dirigir, submeter e desenvolver os outros dois capitais. Temos, na fase imperialista, de monopólios e oligopólios, o capital financeiro (e assim, a produção e a distribuição também evoluem). Este modelo, na falta de uma revolução mundial, junto à especulação, atingiu a máxima potência com o capital fictício/capital parasitário (em síntese: busca de rendimento, de “juros” ou lucro, desligada da e subordinando a produção, diferente do típico ao capital bancário, ao investir, por exemplo, em dívidas públicas – a nosso ver, o desenvolvimento do chamado capital especulativo ocorre como consequência da fase/modelo imperialista, uma intensificação)[i].

A mudança de lastro (chamemos assim), ou seja, de centralidade-guia em cada uma de suas fases do desenvolvimento capitalista, parece oferecer-nos respostas a inúmeras perguntas; uma delas: a atual potência do capital-dinheiro revela-se base e origem oculta, na essência, do fim da equivalência dólar-ouro. Harvey (1992) dá-nos uma pista nesse sentido, mesmo não intencional, por meio de sua suspeita:

“Estou, portanto, tentado a ver a flexibilidade conseguida na produção, nos mercado de trabalho e no consumo antes como um resultado da busca de soluções financeiras para as tendências de crise do capitalismo do que o contrário. Isso implicaria que o sistema financeiro alcançou um grau de autonomia diante da produção real sem precedentes na história do capitalismo, levando este último a uma era de riscos financeiros igualmente inéditos.”[ii] (p. 181)

Continuemos a construção.

Peço espaço ao leitor para falarmos sobre dialética, o abstrato-concreto. A dialética marxista difere-se, por exemplo, dos métodos indutivo e dedutivo; partimos de uma realidade dada, observável, total, concreta para – a partir daí – estudar e compreender as partes constituintes deste objeto estudado; logo após, unimos-lhes, conectando-os, percebendo suas interinfluências e interrelações; ou seja, voltamos ao concreto, mas em uma dimensão superior. Isto nada mais é que seguir o fluxo da própria dinâmica da matéria; um exemplo: todas as ciências eram, em estado inferior, resumidas na filosofia; depois, foi necessário separá-las e desenvolvê-las individualmente; agora, a tendência é reuni-las na físico-química, na psicologia (ciências sociais somadas à biologia), no marxismo (fusão de todas as ciências sociais em uma única ciência social, incluindo certa influência da biologia, etc.).

O mesmo ocorre, em sua permanente inter-relação, com o capital. Tivemos três centros de gravidade (dialética central-orbitante) durante seu desenvolvimento interno, que agora caminha para a fase final de decadência, sua senilidade. As três partes constitutivas de uma única totalidade/capital, em nossa época, evoluíram imensamente, como de suas tendências naturais. Sempre que um centro de gravidade beirava certo ápice-crise, ocorria o deslocamento, graças as suas interinfluências e interdependências.

A dialética, por esta análise, aponta para a fusão: fim da relação alienada entre os capitais e de suas autonomizações relativas. Quando Lenin insiste, em “Imperialismo – Fase Superior do Capitalismo”, em levantar a tendência à fusão dos capitais bancário e produtivo, observa, em verdade, o futuro e a lei do capitalismo. Os setores bancário, produtivo e comercial tendem – permanentemente, hoje – à união, confluência e integração; ou seja: concentração e centralização[iii] (ver nota de fim sobre dialética). Basicamente, o valor faz este chamado. E a este mesmo chamado respondemos e percebemos: a fusão total de capitais – fim da relação e domínio alienados entre eles – só será possível com a destruição do capital, com a revolução socialista planetária, com o fim do comércio, com a extinção do trabalho manual e assalariado, com democracia operária e socialista, com economia planejada e propriedade coletiva[iv].

Então: de um concreto simples, do central capital-mercadoria, avançou-se para a relação alienada, o capital industrial ou centralidade do capital-produtivo, e hoje pretende a integração não-alienada ou, dito de outra forma, fase imperialista que alcançará seu objetivo pela negação, pela revolução mundial.

Neste sentido, parece-nos, o desenvolvimento do valor-capital finalmente encontrou um limite. Não cairá, porém, por velhice avançada: há a possibilidade de ainda mais concentração e centralização, incluindo maior controle sobre o capital comercial e da área de serviços e maior independência da produção em relação à matéria-prima[v]. Tal hipótese só será possível após duríssima luta de classes, com derrota do proletariado, com instauração de relações semi-escravistas; por outro lado, assim como a fase final do império-economia romana, para fins de comparação, o mundo e as relações entre estados-nacionais serão cada vez mais instáveis e sob dificuldade de estabelecer um centro de gravidade do poder (em profundidade, isso ocorre pela necessidade de superação da contradição economia mundial/fronteiras nacionais). Enfim, apesar da aparência[vi] pós-Muro de Berlim, na essência a realidade – na etapa revolucionária – amadureceu para o socialismo.

Em suma, na centralidade do comércio (fase I) o valor era uma qualidade, um adjetivo da mercadoria; quando há o deslocamento para a produção (fase II), revolução industrial, o valor torna-se/consolida-se adjetivo substantivado, um substantivo, o capital ou valor-capital; em nossa época (fase III), imperialista e de decadência do imperialismo, onde o setor bancário – em verdade: capital-dinheiro – torna-se centralizante, o valor deseja ser um substantivo abstrato (o capital especulativo e a digitalização do dinheiro, por ex.) ou um verbo que se faz carne (a robótica, por ex.) – embora impossível, parte de sua crise.

Se compreender é superar (Hegel), resolver é transformar.

CONTRADIÇÃO APARÊNCIA-ESSÊNCIA/CAPITAL-VALOR

Este livro pretende ser acessível tanto ao leitor iniciado ao marxismo quando ao não; agora, para uma leitura agradável, precisamos redobrar a vigilância, que dialogaremos a partir de certos processos de abstração. Por isso, espero oferecer clareza e concisão; seguiremos ao próximo parágrafo.

Em nossa época, a relação valor-de-uso e valor tem produzido um novo fenômeno: ao dominar o duplo caráter da mercadoria, o valor consegue uma façanha nova, qual seja: os valores-de-uso tendem a desprender-se do suporte. Ilustremos: quantos objetos das décadas de 1980 e 1990 cabem hoje em um único e pequeno aparelho? Quantas utilidades, por meio de aplicativos, pode haver em um celular? Mesmo simples produtos naturais como fruta transformável em suco pode ser substituído por um pó químico que simula o sabor e o cheiro do produto – valor-de-uso – original. Isto ocorre pelo que explicamos, a supremacia do valor(-capital), mas não somente.

O que descrevemos anteriormente manifesta uma necessidade de valorização do valor, que tende a desaparecer; este substantivado protagonista da sociedade gera a aparência, ou seja, o capital. Como explicamos em uma das notas de fim, pode haver contradição nessa relação: neste caso: o desenvolvimento dos capitais tende a encerrar a relação “valor gerado pelo trabalho abstrato[vii], geral, medido pelo tempo de trabalho (socialmente necessário para a reprodução de uma mercadoria)”. Ou seja: o capital caminha para a) diminuição constante do tempo necessário para criar um produto; b) substituição do trabalhador ou trabalho vivo, que agrega/gera valor na produção, pelo maquinário (e matéria-prima) ou trabalho morto, que não se pode explorar e por isso apenas transfere valor. Do ponto de vista das consequências: tendência a mais valores-de-uso, a menores valores (de troca, mediado pela monopolização) e principalmente menor mais-valor ou lucro. Revelou-se então uma contradição importantíssima: a relação valor-capital, essência-aparência, resolvida com mais contradição, com concentração/centralização de capitais, com mais tecnologia, com fragilização do valor-de-uso ou tempo útil das mercadorias (obsolescência programada), com desprendimento dos valores-de-uso do suporte e, ao mesmo tempo, tendência a reuni-los em um só; no subterrâneo: extração cada vez mais concentrada do trabalho não pago, o mais-valor.

            Voltemos ao exemplo do suco de laranja artificial. A preferência de um burguês por um valor-de-uso deslocado do suporte não tem origem subjetiva ou imaginativa mas sim no fato de que, de um lado, exige menor trabalho socialmente necessário (no caso: melhores condições para apropriar-se do valor total, baixar o valor-de-troca, vencer concorrência), e de outro, diminui sua dependência das variações conjunturais doutro setor, o agroindustrial. Pode inclusive mudar o sabor-cor-cheiro (valor-de-uso) do produto com poucos movimentos, em minutos. Percebemos um processo objetivo.

Do observado, formulamos: um único trabalho abstrato para múltiplos valores-de-uso. Em longo prazo, a contradição prejudica o essencial ou valor em favor do aparencial ou capital como consequência do duplo caráter positivo/negativo. Assim, a tendência à concentração e centralização de vários valores-de-uso apresenta-se como necessidade e afirmação do valor, embora desemborque em uma negação, qual seja, a inflação da aparência-capital coloca em crise a essência-valor. Nesse sentido, a monopolização contratendencia para contradição valor-de-troca elevado / valor em crise.

Sob a óptica dialética concreto-abstrato-concreto e concentração-centralização-central-orbitante; 1) no princípio da relação mercantil, o produto-mercadoria era simples e concentrado; 2) com o capitalismo amadurecido, surgiu cada vez mais novas, variadas e especializadas formas de mercadoria disponíveis, vendáveis; 3) fase imperialista, desenvolvimento e produção de mercadorias atinge o auge – intensiva e extensivamente – e, por isso, agora tende à fusão, fim da relação “alienada”, dos valores-de-uso e, por causa e consequência, da extração de valor. E qual será o resultado final deste processo? Ao destruir o comércio, o socialismo apresentará caminhos novos aos produtos; no momento, esta não é uma preocupação nossa.

Para irmos ao subcapítulo seguinte, comentaremos em velocidade outras duas tendências. Primeira: relativa fusão mercadoria-arte, mercadoria-estética, valor-de-uso como um valor também poético: dos tipos de carro aos tipos de lâmina de barbear, quem mais paga (valor-de-troca) possui acesso a um valor-de-uso mais belo (na relação concreto-abstrato, mais trabalho concreto exige mais tempo, ou seja, maior valor)[viii]. Segunda: o equivalente geral dinheiro caminha-se para a “moeda única”: cartão de crédito como suporte central e – expressão-do-valor/valor-de-uso! – bytes[ix].

Finalmente, voltamos à questão-bússola do capítulo:

A CRISE SISTÊMICA

Podemos enumerar quatro tipos principais de crises do capitalismo:
1.      As cíclicas, de superprodução;
2.      As orgânicas, de superprodução crônica, quando o capital encontra barreiras internas;
3.      As estruturais, quando os elementos que constituem e permitem o capital entram em crise (Estado, Valor, família monogâmica, ciência, natureza, etc.);
4.      As de época ou era[x], como dimensão maior das crises orgânica e estrutural.

Em um ponto de vista imensamente artificial – advertimos –, abstraindo fenômenos como a luta de classes ou a ciência; este modelo, centro de gravidade do capital, altera-se a cada um ou dois séculos, mais ou menos, com o fluxo temporal encurtado a cada deslocamento.

A dialética observa que o simples torna-se, superado, o complexo e este último tem dentro de si os elementos daquele, do simples. A crise orgânica é como a crise cíclica evoluída, complexa; e assim por diante. A atual crise mundial é ao mesmo tempo cíclica, orgânica, estrutural e – também e por isso – a última de uma era (capital financeiro/especulativo, centralidade bancária, capital-dinheiro), que esperamos encerrar-se em seu último ciclo.

Para concluir, como síntese-fim dos três ciclos confluídos, observamos:
1.      Essência capital-mercadoria. Foco da economia capitalista, o comércio expandiu-se extensiva e intensivamente por todo o mundo – alcançou o ápice;
2.      Essência capital-produtivo. A produção-capacidade produtiva – com o avanço técnico (especialmente, a automação e a robótica) e presença em todos os continentes junto a sua altíssima monopolização e oligopolização – tende à superprodução crônica mais crise do valor-trabalho (manual) – alcançou o ápice;
3.      Essência capital-dinheiro. O setor bancário inchou-se absurdamente, com domínio sobre a economia e impulsionando esta (incluindo por parte dos capitais fictícios e parasitários), sendo componente essencial da crise – alcançou, também, o ápice.

Convido-o, caso não o tenha feito, a ler as notas de fim do artigo.

João Paulo da Síria[xi]




[i] Podemos, por conclusão, retomar as avaliações:
1.         Do século XII, renascimento do comércio, até o século XVI houve a fase embrionária do valor-capital;
2.         A partir das navegações (século XVI), salto na relação comercial, o valor-capital adquire juventude;
3.         Com o século XVIII, primeira revolução industrial, o capitalismo amadurece, chega à fase adulta;
4.         Com o imperialismo, final do século XIX, começa sua velhice;
5.         Agora, agoniza cheio de medicamentos e aparelhos artificiais.
Cada alteração centralidade-orbitação estimula/guia o desenvolvimento dos outros dois aspectos da tríade-capital.
[ii] HAVEY, David (1992). Condição pós-moderna. São Paulo : Edições Loyola. (1.ed., 1989). Tradução de Carcanholo e nakatani para o artigo (1999) “O capital especulativo parasitário: uma precisão teórica sobre o capital financeiro, característico da globalização”.
[iii] Há algum tempo, avalio a possibilidade interpretativa seguinte: diferente do que se costuma observar, apesar das raízes linguísticas; a lógica formal, aristotélica, é uma relação duo, duplo-estática – embora o terceiro excluído – e em linha reta. O “Terceiro”, na verdade, apresenta-se como o segundo, o não igual, o outro, o não-é.
A lógica dialética materialista, marxista, por outro lado, apresenta uma relação triangular, tríade, onde dois elementos são centrais e outro não raro apresenta-se intermédio ou liga – embora a dualidade não estática exista (duplo caráter, por exemplo) –, em um movimento circular na totalidade e em espiral quanto à evolução. Para breve esboço: duplo-caráter interno, triangular nas inter-relações, circular nos movimentos de totalidade e espiral quanto à evolução dialética (saltos, saltos por ruptura, negação da negação, desigual e combinado, etc.).
Para abstrairmos, algumas inter-relações tríade dialética: a) infraestrutura, estrutura, superestrutura; b) ID, ego, superego; c) inconsciente, subconsciente, consciente; d) proletariado, setores médios, burguesia; e) acorde Dó formado por dó, mi, sol; f) indústria de matéria-prima, indústria de bens de produção, indústria de bens de consumo; g) prótons, elétrons, nêutrons; h) relação edipiana filho, mãe, pai; i) forças produtivas natureza, técnica, homem ou matéria-prima, maquinário, trabalhador; etc. – quando e se há, um quarto elemento ou o que destoa chamemos colateral.
Quanto à reta (formal) e ao circular (dialética); sobre o primeiro, na matemática grega, a menor distância entre um ponto e outro é uma reta; sobre o segundo, nos cálculos físicos de Einstein: no cosmos, a menor distância entre um ponto e outro é uma curva. Vale dizer; a dialética, além de negá-la, utiliza a lógica formal como ferramenta auxiliar.
[iv] Podemos considerar além. Toda a história humana e das sociedades de classes são a busca – por mediações e desigualdades – da concentração e centralização máxima de todos os aspectos da vida social, qual seja, o comunismo, cuja expressão desta lógica é a desalienação, integração (os termos dialéticos citados, concentração e centralização, podem causar alguma confusão subjetiva/conceitual ao serem associados erroneamente, neste caso, ao burocratismo ou ditaduras ou imperialismos). Rápida amostra: no primitivismo, o pajé ou líder ou ancião era a expressão frágil do poder; no escravismo, surge o Estado, que é superior à relação tribal – incluso territorialmente; depois, Idade média produz um novo Estado, absolutista ou feudal – melhor preparado, em geral, que seu antecessor; em sequência, o Estado burguês aparenta-se como grande evolução deste tipo de superestrutura; porém, o Estado operário, com sua própria democracia e economia estatal/coletiva/planejada/mundial – ou seja: maior concentração e centralização –, será o máximo exemplo; só superado pelo comunismo, onde o aparelho definhará e administrará somente as coisas, não os homens. Outro, na natureza: o Sol, daqui há alguns bilhões de anos, expandirá sua massa, engolindo os planetas e luas de seu sistema. Conclui-se: o máximo de algo é também a sua superação.
[v] O avanço tecnológico pode fazer surgir, por exemplo, algo como um “suporte maleável e universal”, multiuso, holográfico, que ora sirva como celular, ora como computador, ora como TV, ora como game, etc. Será uma solução ao capital na medida em que diminuirá sua dependência dos países atrasados e da matéria-prima, aumentará a concentração-centralização, relativizará a crise ambiental e permitirá maior controle do fluxo de dados e informações. Como fonte de energia auxiliar, sem abandonar as de origem fósseis, relativizando a inevitável crise do meio ambiente, talvez aprendam a processar, para combustão, algum elemento abundante no ar, como hidrogênio ou carbono. Estas tendências são uma lei: os valores de uso tendem a desprender-se do suporte (e/ou concentrar-se em apenas um), atrapalhando o valor e, ao mesmo tempo, ajudam a concentrar e centralizar capitais. Mais sobre, ver: “14 teses sobre a alienação hoje; uma hipótese perigosa” deste blog.
[vi] Na dialética, a essência gera a aparência, que é a manifestação daquela. Aparência é um fenômeno real, um “algo”; a essência determina e influencia o aparencial, que pode ser mais ou menos contraditório com o essencial. Porém, a aparência, como manifestação e algo em si, também influencia sua “fonte”, digamos dessa forma. Exemplo: se o valor de troca (aparência) de uma mercadoria, o preço, fica muito abaixo ou muito acima do seu valor (essência, medido pelo tempo de trabalho socialmente necessário para [re]produzir uma mercadoria) gera ou crise na economia ou, no segundo caso, inflação, sintoma de monopólios, etc. Dessa forma, as revoluções nos ex-Estados operários degenerados (após a restauração do capitalismo por ação dos dirigentes estatais), foram derrotadas (boa parte) pela “reação democrática”, pelo uso do voto; isso deu origem a uma situação reacionária mundial dentro de uma nova etapa revolucionária. No início dos anos 2000, com as guerras do Iraque e Afeganistão, crise de 2001, Torres Gêmeas, revoluções na América Latina, etc. entramos numa transição entre um situação não-revolucionária (fim da década de 1990) e uma pré-revolucionária.  Agora, a partir da crise mundial, de 2008, entramos numa situação pré-revolucionária mundial rumo a uma situação revolucionária ou contrarrevolucionária (possivelmente também mediada por uma transição).
[vii] Para esclarecer: a floresta amazônica (abstrato) é um conjunto de árvores que juntas, independente dos tipos específicos, produzem chuva no sudeste, biomassa, oxigênio, absorvem carbono e etc. Nesse sentido o abstrato, árvores em geral, é “algo”, algo real e importantíssimo. Individualmente, cada árvore produz frutos diferentes (concreto) e possuem características próprias que as diferem das outras e das de sua própria espécie (concreto). Vemos que na relação abstrato-concreto existe intimidade, sendo diferentes. O trabalho concreto produz valor-de-uso; o trabalho abstrato, valor.
[viii] Na produção, a flexibilidade e a microeletrônica facilitam – muito, como causa – este processo. O método “dedicado” de produzir, inflexível e rígido, ver-se em uma desvantagem relativa.
[ix] Pergunta ao leitor: os bancos centrais tendem, no futuro, a perder o monopólio da moeda? No momento, opino que sim. Nos próximos anos – caso não ocorra! –, pretendo apresentar um material estável e conclusivo sobre. No mais: Interessante que, ao contrário do papel-moeda, a expressão do valor – os dados computacionais – salta de suporte em suporte.
[x] Talvez, mais exato seja chamá-la crise-revolução.
[xi] Não encontrei esta observação, os centros de gravidade do capital, em outro trabalho teórico ou nos clássicos; porém, se algum dos leitores conhecer, peço que publique nos comentários link, fonte ou autor que, por acaso, já tenha desenvolvido estas teses; desde já, agradeço.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crítica ao Regime Leninista Proposto por Moreno

                                                                   “A história de nossa corrente é a história de seus erros.” 
N. Moreno

Não podemos aprender a resolver os problemas de hoje pelos novos métodos se a experiência de ontem não nos abriu os olhos para ver onde foi que estavam errados os antigos métodos.”
Lenin, Obras Completas, vol. XXIII, p. 90.

Como organizamos a democracia e o centralismo partidários em cada conjuntura? Como estes dois elementos existem em cada momento político? Estas são as indagações presentes nas entrelinhas do texto. Aqui, dividiremos com o leitor uma critica à concepção morenista de regime bolchevique, contrapondo-a à de Leon Trotsky – fundamentalmente.
Para que se desarme, de já, qualquer desconfiança, sugerimos as seguintes questões preliminares: a) como explanaremos, Moreno acertou/errou; b) elaborou um regime partidário conjuntural, temporário, sem atentar-se para as mudanças possíveis; c) o autor deste artigo é morenista – e absorve deste revolucionário, o maior trotskista depois de Trotsky, um princípio: d)  nunca dogmatizar os metres e  o marxismo.




A REALIDADE DE NAHUEL MORENO
O primeiro passo é contextualizar a situação. No pós-II Guerra o trotskismo era um movimento marginal, sob a ameaça constante de degeneração ou, pior, de desaparecer. Ao contrário daquilo que Trotsky prognosticara, o stalinismo tornou-se uma potência no movimento de massas mundial. Deste período, mesmo as novas revoluções socialistas atrapalhavam um trabalho verdadeiramente comunista; vejamos: a) A base social dessas revoluções era campesina – enquanto o trotskismo é uma corrente tipicamente operária; b) Desde o princípio, surgiram sob a mão repressora, antidemocracia operária, das burocracias estatais. Estes elementos pendiam objetivamente para o desaparecimento completo do trotskismo. Martín Hernandez, veterano trosko-morenista, relata:

   “Lembro-me quando, em 1968, entrei no PRT – La Verdad da Argentina, que era dirigido por Nahuel Moreno, o maior dirigente trotskista do pós-guerra. O partido, após 25 anos de atuação e depois de ter sido protagonista de grandes acontecimentos da luta de classes, como ter dirigido a grande greve metalúrgica de Buenos Aires, tinha somente 200 militantes.
Da mesma forma, no Peru, apesar de ter dirigido a revolução agrária na década de 1960 e de ter em nossas fileiras Hugo Blanco, o maior dirigente de massas do trotskismo da época, nosso partido nunca teve mais do que 30 militantes.
Nunca me esqueço do informe que recebi, poucos meses após ter começado a militar, sobre as forças da IV Internacional. Nosso partido era um dos maiores. Na França, tínhamos 30 militantes; na Espanha e em Portugal, nenhum. No Brasil e na Venezuela, tínhamos alguns contatos; na Colômbia e na América Central, nada.
E, em 1976 (após a derrota do imperialismo no Vietnã), na Itália, ganhamos para a tendência bolchevique um grupo de estudantes secundaristas. E me lembro, como se fosse hoje, da dura discussão que Moreno teve com aqueles jovens, pois eles queriam ir militar na classe operária italiana e Moreno, que sempre teve a obsessão de inserir nossos partidos e grupos na classe operária, após longas discussões, convenceu-os a não irem para o movimento operário. Seu argumento foi muito simples: “Vocês ainda são muito débeis e se forem para a classe operária o stalinismo vai acabar com vocês.” O PC italiano tinha, naquela época, um milhão de filiados e controlava, com mão de ferro, todo o movimento operário.”[i]

A duríssima dificuldade exposta é chave para compreendermos a atualização do regime partidário proposta por Moreno. Um projeto partidário, com sua forma organizativa, sendo uma superestrutura, deve ser explicada a partir da realidade que a forma. Para isso, precisamos recordar que, com a revolução cubana, o imperialismo patrocinou ditaduras militares por toda a América Latina, a tradicional base territorial do trotskismo bárbaro (morenismo). Inevitavelmente, agregou-se mais um importante elemento impeditivo. Este tipo hostil de situação alimenta características exóticas, de seitas, nos partidos – e voltam-se para dentro de si. Segundo Cannon, relatando a clandestinidade vivida pelo PC americano:

O movimento permaneceu ilegal desde 1919 até o começo de 1922 depois que o primeiro choque das perseguições passou e os grupos e células se acostumaram a sua existência ilegal, os elementos na direção que tendiam ao irrealismo ganharam força, tanto e quanto o movimento estava então completamente isolado da vida pública e das organizações operárias do país.
Então, eu, por minha parte, me dei conta pela primeira vez do completo mau da enfermidade do ultra-esquerdismo. Parece ser uma lei peculiar que quanto maior é o isolamento de um partido da vida do movimento operário, quanto menor é o contato que tem com o movimento de massas, e quanto menor é a correção que este pode exercer sobre o partido, tanto mais radicais se tornam suas formulações, seus programas, etc. (…) Vocês vêm, não custava nada ser ultra-radical porque de qualquer maneira ninguém lhe prestava atenção. Não tínhamos reuniões públicas, não tínhamos que falar aos operários ou ver quais eram suas reações à nossas consignas. Assim, os que gritavam mais forte em nossas reuniões fechadas se converteram em mais e mais dominantes na direção do movimento. A fraseologia do "radicalismo" teve seu dia de festa. Os anos iniciais do movimento comunista neste país estiveram mais que consagrados ao ultra-esquerdismo.
(…)
O movimento teve uma vida interna muito intensa, até porque estava isolado e voltado para si mesmo. As disputas fracionais eram ferozes e largamente extenuantes.[ii](grifo nosso.)


COMO MORENO REAGIU
O que apresentamos anteriormente levou Moreno a precaver-se das tendências degenerativas nos partidos. Basicamente propôs: a) proibir a possibilidade de fracções e tendências em períodos não pré-congressuais; b) legalizar a possibilidade de fracionamento para meses antes do congresso partidário. Podemos deduzir que a fórmula proposta pelo argentino é útil para partidos clandestinos e muito minoritários, ao girar a organização para fora de si; porém, esta é uma verdade em parte. Queremos demonstrar ao leitor o caráter antidialético da proposta deste marxista. Por isso, finalmente, vamos à defesa dele, nas “Teses Para Atualização do Programa de Transição”:

Não pode existir democracia sem direitos para as tendências e as frações. Mas este é um direito excepcional porque o surgimento de tendências e fracções é uma desgraça para um partido centralizado para a ação. A discussão permanente em todos os órgãos partidários é a mais grande ferramenta de elaboração política para um partido trotskista. O partido deve viver discutindo sistematicamente. Tem que confrontar experiências individuais ou de organismos distintos e setores de trabalho distintos para que através do choque e da discussão surja una linha correta, a melhor resultante. Porém esta virtude da discussão permanente se transforma no oposto quando um partido vive discutindo permanentemente desde grupos organizados em frações e tendências, e muito mais ainda se estas sobrevivem através do tempo(aqui notamos a real origem de sua preocupação – comentário do articulista). Quando isto ocorre, as frações deixam de sê-lo para converter-se em camarilhas. O partido deixa de atuar em forma unitária para e rumo ao movimento de massas para voltar-se para dentro, se paralisa, cria um ambiente parlamentário de polémica permanente e inevitavelmente deixa de atuar de forma unitária e passa a ter como atividade principal a discussão, isto é, deixa de atuar principalmente no movimento de massas. A discussão é um meio fundamental e decisivo para nossa atividade, mas: só um meio. A existência de frações e tendências permanentes transformam a discussão num fim em si e não num meio do centralismo e da ação unida frente ao movimento de massas.[iii] (Grifos nossos.)

Nahuel Moreno inverteu causa e consequência. A origem do fracionamento permanente era – como nos indicaram as citações de Cannon e Martín – a permanente tendência à marginalização, à fragilidade interna. Ainda assim, o argumento da Tese encontraria algum acordo em Trotsky? Não. Ao contrário. Para este, a simples possibilidade – hipótese – de existir tendências e frações era, em si, uma necessária forma de pressão e controle da base sobre a direção. E, por consequência, um mecanismo anti-burocrático; pois:

Naturalmente, grupos, assim como diferenças de opinião são um mal. Mas esse mal é uma parte necessária do desenvolvimento dialético do partido, assim como as toxinas o são na vida do organismo humano.
A transformação dos grupos em frações organizadas e fechadas é um mal muito maior. A arte de dirigir o partido consiste precisamente em prevenir tal desenvolvimento. É impossível chegar a tal ponto pela mera proibição.
(…)
Porque a tarefa não consiste em proibir frações, mas em evitá-las.[iv] (Grifo nosso.)

Como lemos, para Trotsky é o inverso. A contradição – e tudo é dialético – apresenta-se como parte inerente da realidade, incluso a de um partido revolucionário. Negar a contradição apenas muda ou camufla seu caráter. A possibilidade de um corpo dirigente sofrer reclamações da base, de perder a direção, de se desmoralizar é – por si mesma – um recurso democrático, um controle, um estado de alerta; além de abrir espaço para que políticas erradas e irrealistas possam ser corrigidas. Sequer precisa uma luta interna existir de fato: basta existir o mecanismo, o meio, uma pressão subjetiva sobre os dirigentes. Porém, Moreno enfraquece a democracia vertical (da base para direção) e mantém a horizontal (dentro dos organismos).


A DIALÉTICA DO REGIME
Ao mesmo tempo, há um acerto no erro de Moreno. Precisou adaptar o regime partidário às duríssimas condições em que militara. Ou seja, a proposta dele seria correta apenas conjunturalmente, e nunca permanentemente. Com o regime partidário que ele propunha, ocorreu exato o que ele temia: “Assim evitaremos o grave perigo de criar movimentos trotskistas com influência de massas que, chegado o momento da ação, vejam-se anárquicos e incapazes de atuar com a centralização e disciplina de um exército revolucionário.”[v] Entretanto, foi isso exatamente o que ocorreu com o MAS da Argentina, criado por Nahuel, após adquirir influência de massas. Por quê? Para responder em detalhes necessitaremos da dialética materialista.
A tendência geral da matéria é ir do simples ao complexo. Por exemplo, todo o universo já foi composto por apenas um único/simples elemento da tabela periódica: o Hidrogênio. A gravidade, as supernovas, etc., por 13 bilhões de anos, fizeram surgir elementos novos – quer dizer: um cosmos muito mais complexo. Complexidade é, necessariamente e inclusive, acúmulo maior de contradições, de diferenças internas. Assim também acontece com partidos. Quando são marginais e sob ditaduras, precisam de um regime; quando possuem influência de massas ou de vanguarda, precisam mudar a forma de se organizar, senão implodem ou explodem. Podemos formular, regra geral, o seguinte: quando a realidade e o partido estão mais complexos, então: o regime partidário deverá também tornar-se mais complexo.
Sugestivamente, Moreno descreve a realidade para justificar o afrouxamento da democracia interna nos partidos:

Todos os nossos partidos e nossa Internacional em seu conjunto reivindicam orgulhosos, como seu exemplo, a estrutura do Partido Bolchevique. Isso significa que consideramos que nosso partido tem que estar formado por revolucionários professionais por um lado e que deve ter um regime centralista democrático por o outro. Reivindicamos mais que nunca o centralismo como a obrigação número um de todo partido trotskista. Em esta época revolucionária o trotskismo é perseguido implacavelmente, não só pelo estado burguês, os partidos burgueses e os bandos fascistas, senão também pelos partidos oportunistas, os quais com toda razão nos consideram seus inimigos mortais. Além do mais, nossos partidos se constroem para levar a cabo a luta armada pela tomada do poder, a insurreição. Este supremo objetivo só poderemos alcançar com uma rígida disciplina, cuja única garantia é o centralismo e uma dedicação que só pode ter os militantes profissionais.[vi] (Grifo nosso.)

Mais uma vez, citaremos Trotsky contra Nahuel Moreno. Ao afirmar o caráter temporário e excepcional, quando na fase final da guerra civil na URSS, da proibição de frações no partido Bolchevique; o fundador do Exército Vermelho explica:

Mas a decisão do X Congresso do partido sobre frações ou grupos, que mesmo então precisava de interpretação e aplicação jurídica, não é em caso algum um princípio absoluto que está acima de todas as necessidades do desenvolvimento partidário, independente do país, da situação e do momento.[vii]

E critica o stalinismo, que impôs sua fórmula a todos os partido da IC:

Um partido novo representando um organismo político em completo estágio embrionário, sem nenhum contato real com as massas, sem experiência de direção revolucionária, sem formação teórica, já foi dos pés à cabeça com todos os atributos da “ordem revolucionária”, ficando parecido com um menino de seis anos de idade que usa a armadura de cavaleiro do pai.
(…) Sem uma verdadeira liberdade na vida partidária, liberdade de discussão e liberdade de estabelecer seu rumo coletivamente, através de agrupamentos, esse partidos nunca se tornarão uma força revolucionária decisiva.[viii] (grifo nosso.)

Sobre a FORMA (direção) é preciso considerar seu duplo caráter: progressivo na medida em que preserva as conquistas, a experiência e a tradição partidárias; regressivo na medida em que tende a ser conservadora, lenta, estável e a ganhar mais ou menos autonomia em relação ao conteúdo (as camadas partidárias abaixo da direção). Portanto, um regime centralista com democracia partidária deve primar e, se necessário e possível, lutar para que o aspecto progressivo se sobreponha ao regressivo ao que se refere a este caráter duplo da forma ou superestrutura. Aqui erra Moreno. O regime que este propôs gera uma contradição forma-conteúdo tão-logo uma organização avance do simples ao complexo. Contradições acidentais, não-essenciais, não-determinantes e relativas avançam, mesmo em silêncio, para contradições permanentes, essenciais, determinantes e absolutas. Ao contrário do que pensa a lógica formal, a contradição é o pai e a mãe do progresso; já a não contradição gera monopólio, inércia, paralisia, não ou pouco movimento e, por fim, a morte; apenas quando a contradição acumula-se por tempo demasiado, sem solução, sem salto de qualidade, é que o corpo degenerada ou sente febre altíssima ou morre ou fragmenta-se. Percebemos quanta diferença nos faz a dialética materialista. Centralismo e democracia são, em um partido revolucionário, polos internos, necessários, opostos, complementares e deve-se evitar o distanciamento um do outro ou um excessivo domínio contraditório de um sobre o outro. No partido, o centralismo é uma reação à barbárie capitalista e necessidade de enfrentá-la, como uma greve, sendo uma barbárie, enfrentando o capital; a democracia representa a necessidade do futuro, da desalienação, e seu desejo, um sintoma leve do comunismo. O capitalismo costuma empurrar-nos mais para a tendência centralista, com a burocratizão; no socialismo, a organização partidária, por outro lado, será cada vez mais democrática, frouxa, aberta, pois tenderá ao completo desparecimento em uma sociedade comunista - por hoje, ambos são completamente necessários.


AS CONSEQUÊNCIAS
De forma preliminar, queremos enumerar algumas consequências. Na medida em que um partido torna permanente a proposta morenista, ocorre:
1.      O partido vive um permanente ciclo crescimento-crise-ruptura;
2.      Por isso, tende a estagnar em um tamanho estável;
3.      Com a escassez de polêmica, atrasa-se a formação dos militantes e quadros;
4.      Na medida em que a organização cresce, do simples ao complexo, o organismo dirigente tende a ter autonomia, desloca-se, em relação a sua própria base. São sinais de burocratismo;
5.      Fica, a partir do quarto ponto, mais difícil a base controlar a direção;
6.      Torna-se difícil perceber os erros e suas consequências na medida em que faltam meios para expressar polêmicas;
7.      Do ponto seis, as contradições inevitavelmente acumulam-se, tomando forma fracional;
8.      Via de regra, por causa da proibição, as frações/tendências já surgem deformadas: na forma de disputas por cargos, frações de direção, grupos de amigos-militantes, reuniões informais, frações secretas;
9.      Psicologicamente, os militantes movem-se por fé, e não por confiar na democracia interna; temem polêmicas; consideram toda diferença como divisão do partido; a direção desenvolve arrogância e desconfia da base;
10. Tende a cometer mais erros políticos, com dificuldade de corrigi-los;
11. Ao impedir a existência de válvulas de escape, ocorrem rupturas, à esquerda e à direita, por indivíduos e por grupos, em relação à posição oficial.

Leon Trotsky explica que a direção é sempre muito mais vacilante que a base:

“As bases do partido proletário são, por sua própria natureza, muito menos suscetíveis à pressão da opinião pública burguesa. Mas certos membros do topo e camadas médias do partido irão infalivelmente sucumbir em maior ou menor medida ao terror material e ideológico da burguesia no momento decisivo. Não levar a sério esse perigo é não saber lidar com ele. Não há, é claro, fórmula mágica contra isso que sirva em todos os casos. Mas o primeiro passo necessário para lutar contra um perigo é entender sua origem e sua natureza”.[ix]

Apresentamos ao leitor algumas perguntas. Se há possibilidade de agrupamentos internos apenas próximo aos congressos, então – como os grupos conseguirão formar-se já que estes disporão de pouquíssimo tempo para reunir membros e amadurecer ideias? Como a base efetuará algum controle sobre os dirigentes? Como, em caso de grave erro, militantes conseguirão acionar 1/3 das regionais para convocação de um congresso extraordinário? Como, também, evitarão que a direção adie congressos? Em partidos pequenos estas perguntas/contradições podem ser resolvidas com alguma facilidade. Mas: e quando começarem a crescer?
Ao mesmo tempo, precisa-se evitar fracionalismos. Um partido pequeníssimo – constituído de uma única regional com 20 ou 30 membros – suporta, por exemplo, boletins individuais com opiniões e propostas vindas da base. Porém, o mesmo não serve a um partido com 3.000 membros, pois este viraria um clube de debate e papéis; neste caso, a possibilidade de agrupamentos é a alternativa saldável. Já em um partido com influência de massas, complexo, como o Bolchevique a partir de 1917/8, pode-se, como de fato ocorreu, publicitar polêmicas e propostas em espaços específicos da imprensa partidária.
Assim também, o nível teórico da base, a experiência prática geral, a cultura nacional (o brasileiro médio tem desprezo e inveja contra a inteligência), a conjuntura, o tamanho do território onde existe, a composição de classe dos membros, etc.: todos estes elementos ajudam ou atrapalham, consciente ou inconscientemente. Para perceber e corrigir, uma compreensão correta, dialética, do regime leninista faz total diferença.


A INTERNACIONAL
Em 1971, no congresso da IV Internacional, Mandel acusou Moreno de proibir grupos internos. Este, sem demora, percebendo a tentativa de desmoralização, respondeu aquilo que expomos: pode-se nos períodos pré-congressuais. Independente disso, o fundador da LIT explica sobre o regime do partido mundial:

Nós estamos construindo a mais formidável arma organizativa revolucionária que tem conhecido a historia: um partido mundial bolchevique. Em este processo de construção do partido se impõe, para esta etapa, fortificar o polo democrático e não centralista, justamente porque nossas direções, tanto nacionais como internacionais, todavia não tem ganhado um grande prestígio político ante as bases de nossas sessões por seus êxitos na direção do movimento de massas. Só esse prestígio poderia fortalecer o polo centralista e disciplinado; portanto, deve primar o aspecto democrático.”[x]

Também encontramos uma singularidade. No texto há a valorização do aspecto psicológico, subjetivo, do regime – o centralismo será maior quanto maior for a moral da direção; e o mesmo ao contrário. Porém, sendo importante, este elemento é relativo, auxiliar. Se o prestígio facilita o caminho, a democracia interna é uma necessidade absoluta, tanto quanto o centralismo.  Ou seja, claras garantias, mesmo aparenciais, estatutárias, de democracia são vitais. Do contrário, congressos, reuniões, boletins, debates, autocríticas serão nada mais que manobras para dar algum verniz não-estalinista aos dirigentes. Incluso internacionalmente, uma direção mundial qualificada e testada deve permitir às direções nacionais produzir suas próprias políticas e testá-las na prática; assim, ocorrerá o amadurecimento de equipes dignas de situações revolucionárias.


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Cannon afirmou que todo bom comunista raciocina como marxista e sente como anarquista. Isso pronuncia que os trotskistas são rebeldes, teimosos, consideram disciplina como liberdade, admiram a coragem, procuram pensar com a própria cabeça, odeiam a rotina e aceitam as durezas das derrotas. No mesmo sentido, mas de outra forma, encerraremos com um protesto de Leon Trotsky:

“Sim, no partido de Lenin, que fez a Revolução de Outubro, os operários comunistas estão com medo de falar alto que este ou aquele homem do aparato é um canalha, um ladrão, um violador. Esta é a lição fundamental das denúncias de Smolensk. E não é um revolucionário quem não core de vergonha com esta lição.”[xi]




João Paulo da Síria 13/02/1016



[i] Artigo e relato completos em: http://blogconvergencia.org/?p=6227
[ii] Livro: A História doTrotskismo Norte-ameriano. Cannon. Fonte e livro completo: https://www.marxists.org/portugues/cannon/1942/historia/cap01.htm
[iii] Traduzido do  Espanhol. Tese: El carácter de nuestro partido y de nuestra internacional – de: Teses Para a Atualização do Programa de Transição. Fonte e livro completos: https://www.marxists.org/espanol/moreno/actual/apt_4.htm#t38
[iv] Trotsky, Leon. STALIN, o grande organizador de derrotas. Sâo Paulo; Editora Instituto José Luís e Roa Sundermann, 2010.
[v] Idem ao iii.
[vi] Idem ao iii.
[vii] Idem ao iv. Pág. 203
[viii] Idem ao iv. Pág. 206, 207.
[ix] Idem ao iv. Pág. 163.
[x] Moreno, Nahuel. O Partido e a Revolução. Capítulo e livro completos em: https://www.marxists.org/espanol/moreno/pmopl/pmopl-3.htm#g
[xi] Idem ao iv. Pág. 81.

domingo, 13 de setembro de 2015

BRASIL E PT: PAÍS DA "VIA PRUSSIANA"

Getúlio Vargas

"Façamos a revolução antes que o povo a faça"
- Antônio Carlos de Andrada 
(defensor do Estado Novo, ex-governador de Minas Gerais)


O PAÍS E O QUE DIZ A HISTÓRIA 

Há quem considere o Brasil uma experiência anormal - Sui Generis - na história do capitalismo, um verdadeiro ornitorrinco onde o "desenvolvimento desigual e combinado" é a grande lei. Ou seja, um incrível acúmulo e fusão de contradições entre o moderno e o arcaico prospera por aqui.

A pobreza, a vida favelada e o atraso convivem com a tecnologia de ponta, a indústria, uma importante economia mundial e a "vocação romana" para absorver cultura internacional. A partir disso, podemos perguntar: como o país nunca teve uma revolução - nacional ou socialista - vitoriosa? Como sequer uma greve geral nacional participa de nosso histórico?

A burguesia sabe da poderosa bomba chamada revolução brasileira. Por isso, alia violência de Estado com mudanças pelo alto - para, na prática, nada mudar. Chamamos Revolução Passiva ou Via Prussiana. O incrível acúmulo de contradições fez e faz do Brasil um dos países do mundo potencialmente mais explosivos. Ao somarmos, a isso, sua localização não-marginal no Sistema Internacional do Trabalho, percebemos a permanente delicadeza da estabilidade verde-amarela e - ao mesmo tempo - a enorme inteligência dos "de cima". Precisamos, logo vemos, (re)olhar a história:

1. Autonomia nacional em relação à Portugal;
Foi possível graças, primeiro, à fuga da Coroa Portuguesa para cá. Depois, com a declaração de independência.

Por toda a América Latina existiram revoluções de libertação nacional, guerras. No território tupiniquim, no entanto, - mesmo considerando a heroica batalha do Jenipapo - deu-se a mudança pelas alturas, por ação da classe dominante, sem riscos, via mecanismos formais.

2. Fim da escravidão;
A onda de fugas e boicotes nas lavouras - preparadas por organizações clandestinas - foram a causa central, embora não reconhecida oficialmente. Porém, a Princesa Isabel e a o governo souberam manobrar a situação para que a mudança fosse controlada e não-revolucionária.

Os EUA e Haiti, para citar dois países, necessitaram do método da guerra civil.

3. Fim da ditadura semifascista de Vargas;
O próprio governo adotou medidas liberalizantes. A ditadura caiu por medidas de decreto dispensando qualquer revolução popular - o mal-estar ainda ensaiava. Deu-se, então, margem para que Getúlio fosse eleito presidente por mecanismos da democracia representativa.

4. Fim da ditadura militar;
As Diretas Já foram derrotadas. Os militares negaram-se a ceder, a aceitar vias populares de mudança. Porém, com a insatisfação social acumulada, permitiram a mudança do regime de Estado por via segura, pacífica, controlada, oficial.

Enquanto boa parte da América Latina e do mundo derrotaram os regimes policiais através de revoluções, o Brasil - ao contrário - mediou.

MEDIAÇÃO E SOCIALISMO

Quando a classe trabalhadora do país for, de forma autônoma, às ruas será praticamente impossível detê-la. A escassez de mudanças reais, de base, por baixo gerou um país com enormes e pendentes demandas históricas. O fim da escravidão, por exemplo, fora pensada para evitar a integração real dos negros à sociedade - o racismo com elementos de classe permanece fortíssimo.

Portanto, socialismo é a única ação e mudança reais sem qualquer tipo de mediação ou espaço para manobras por parte da burguesia nacional e mundial. A máxima burguesa "façamos a revolução antes que o povo a faça" encontra um limite histórico intransponível.

O PT: hipótese sobre o começo do fim
À burguesia, entrando em nossa conjuntura, derrubar o PT exige não-participação das massas (vale lembrar que foram contra o Fora Collor até o último segundo). Uma mobilização popular - além-classe média - contra o governo petista é uma hipótese provável (e, para os ricos, incômoda): 9% de apoio, fragilização de seus aparatos sindicais, dificuldade para manter a base parlamentar sob controle, medidas de austeridade estão causando enorme desconforto aos "de baixo". Dessa forma, os ricos tendem a derrubar Dilma para evitar que o mesmo ocorra nas/pelas ruas.

Possível, concluímos, que o governo caia, por protagonismo burguês, como ação preventiva, via "golpe parlamentar" (à la Paraguai) ou judiciária ou "por consenso de renúncia" logo após as eleições municipais. A datação tem cinco motivos:

1. Poderá convocar, como previsto na lei, novas eleições;
Canalizará, após dois anos de mandado, dessa forma, o desconforto social para caminhos legais/passivos e, também, permitirá ao PSDB apresentar-se como alternativa.

2. Evitará uma queda antecipada, permitindo estabilidade às eleições locais;
Além disso, outras organizações políticas poderão ganhar cargos a partir da fragilidade do petismo.

3. O PT terá acumulado maior desgaste;
Assim, tornará o "impedimento" óbvio e natural, apoiando-se na raiva popular.

4. Permitirá a justificativa subjetiva "o governo teve tempo de gerir o seu novo mandato para o bem do país".

5. Evitará - importantíssimo - ação popular nas ruas.
Colocaria a classe trabalhadora na ofensiva se o governo de Frente Popular caísse por obra dos setores não-privilegiados da sociedade. 

Será, caso se confirme a hipótese do Impedimento pela via passiva, a causa central da ação da classe dominante.

Uma queda antecipada, porém, não é impossível. Caso a instabilidade continue crescendo de modo acelerado, o vice - Michel Temer (PMDB) - poderá assumir para convocar novas eleições no prazo legal, após dois anos mínimos de mandato. O ritmo, e a confirmação destas hipóteses, será determinada pela luta de classes ou - com o conceito Via Prussiana - a necessidade de evitá-la. 
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Como a oposição de esquerda irá agir ajudará a determinar a capacidade de manobra burguesa e o futuro.


J. P. da Síria